Existe uma discussão muito antiga sobre as diferenças entre letra de música e poesia. Já conversei muito sobre o tema com Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, enfim… com quase todo mundo que passa aqui pelo Vozes. Mas tem alguns poetas que fizeram música como poucos. Alice Ruiz é uma delas e tem até um livro publicado com um título que resume nossas discussões pela raiz: “Poesia Pra Tocar no Rádio”. Não é perfeito?
Mas essa semana vou destacar dois outros poetas, marginais e heróis: Torquato Neto e Waly Salomão.
Torquato foi da primeira turma de Tropicalistas, escreveu algumas jóias raras que hoje são clássicos da nossa música popular. Vamos pegar, por exemplo, “Geléia Geral”, uma parceria com Gilberto Gil que virou ícone . Segundo o compositor o poema já veio pronto pra virar música, pra ser “eletrificado” e Gil não mudou nenhuma vírgula. Na biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz, há uma citação de Paulo Leminski que fala dessa composição como uma síntese da obra do poeta: “a grande arte de Torquato, poeta das elipses desconcertants, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade.”
Gil e Torquato são parceiros em mais de 15 canções. Com Caetano ele fez “Mamãe Coragem”, outro ícone dessa época e desse movimento. Foi gravada por Nara Leão e por Gal Costa.
Waly Salomão conheceu Torquato no casamento de Caetano Veloso e Dedé. Waly e Jorge Salomão estavam chegando em Salvador, mas foi no Rio de Janeiro que a amizade se estabeleceu e eles fizeram juntos a revista Navilouca , que teve uma única edição mas fez barulho.
Waly fez simplesmente “Vapor Barato”, uma de suas várias parcerias com Jards Macalé, um símbolo da resistência pop, romântica, tropicalista, dos que ficaram aqui enquanto Caetano e Gil estavam no frio exílio londrino.
Foi Waly que dirigiu o antológico show Gal Fa-Tal com Lanny Gordin e sua guitarra acompanhando a cantora mais importante daquele momento. Waly atravessou movimentos, fez músicas com Caetano Veloso pro repertório de Maria Bethânia (“Mel” e “Talismã”), com Antonio Cícero – outro poeta ícone da música pop brasileira, fez um disco inteiro pra João Bosco (Zona de Fonteira),teve parceria com Lulu Santos gravado pelos Paralamas com grande sucesso (“Assaltaram a Gramática”), fez Cássia Eller finalmente encontrar Cazuza no show e cd Veneno Antimonotonia e teve muitos de seus poemas musicados por Adriana Calcanhotto anos depois da explosão contracultural de que foi protagonista. Calcanhotto acabou por ser uma de suas maiores intérpretes na música contemporânea. Waly colocou sua voz em “Pista de Dança” e a parceria “Fábrica do Poema” foi importante na carreira da compositora gaúcha .
Outro grande encontro de Waly foi com Luiz Melodia por quem o poeta tinha grande admiração. Foi Waly que mostrou “Pérola Negra” pra Gal Costa. Anos depois, Melodia retribui realizando o sonho de Waly Salomão de ter sua parceria com Macalé, “Mal Secreto”, gravado por ele. Mérito de Karla Sabah, cantora e documentarista. Olha só esse trecho do trabalho dela, que jóia rara!
E nesse vídeo, tirado de uma homenagem à Torquato Neto vamos ver Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso fazendo a lindíssima canção “Nenhuma Dor”. Torquato Neto merece ter a obra visitada, são tantas coisas lindas. “Três da Madrugada”, por exemplo é de morrer…
Mais um pedacinho para ouvir trechos de seus poemas com Paulo José e ainda mais do violão de Macalé. Muito bom também os cabelos negros de Wagner Tiso. Fantástico!
Por essas e outras eu toco essa semana no Vozes do Brasil duas canções feitas em parceria com esses mestres da poesia em forma de letra de música. Com Adriana Calcanhoto “Teu Nome Mais Secreto”, faixa do Maré; e com Gal Costa “A Coisa Mais Linda Que Existe”, uma gravação do final dos anos 60. E ainda tem Vinicius de Moraes com Clara Nunes. Poesia pra tocar no rádio.
Que maravilha!!! Sempre é bom lembrar desses nomes tão importantes da música e poesia brasileira que ficam um tanto esquecidos.
Wally e Torquato são sensacionais! Bárbaros e nem tão doces, mas fazem parte da turma que mudou a cara do país no final da década de 60 e início da de 70.
Por falar em Gal Fa-Tal… viste um documentário em duas partes exibido pelo canal Brasil fim de semana passado : ‘Gal da tropicália até Hoje’? Sensacional! Acho que foi feito pela DirecTV. Uma aula de tropicalismo!!!
Bjks!!
ß
Muito boa a materia, vou postar na comunidade do Torquato Neto no orkut que eu modero.
abs
Que delícia! Eu q vou ficar “de molho” durante o feriadão em Sampa já tenho “mils coisas” p/ entreter aqui no seu blog! Ouvi hj na Eldorado sobre Poesia p/ Tocar no Rádio e já me animei toda. Quero MAIS! Vou ler o livro e acompanhar o Vozes para Curtir no Rádio. ;0) bjks
Oi Patrícia, já procurei o Poesia Prá Tocar no Rádio nas livrarias mas não encontro…
bjs
juliana é uma parceria torquato neto (letra) e caetano veloso (música), que preciso encontrar para publicação no livro torquato neto ou a carne seca é servida, terceira edição a sair em breve. tárik de souza, a seu respeito, falou em artigo, inclusive citando parte dos versos:
vou deixar tudo de lado
meu saveiro e meu pecado
só pra quando ela chegar
peço ajuda para encontrar a letra toda.
kenard kruel.
Tô procurando por aqui, mas até agora não achei nada…
achei a letra de juliana (torquato neto / cateano veloso)
JULIANA (1968)
Quando a maré vazar
Vou ver Juliana
Vou ver Julianaína
Vou ver Juliana
Quando a maré vazar
Vou deixar tudo de lado
Meu saveiro e meu pescado
Só pra quando ela chegar
Eu puder ficar na areia
Defronte do mar deitado
Procurando me lembrar
De quem seja mais bonita
De quem seja mais rainha
Do que Julianaína
Do que Juliana
Quando a maré vazar
Vou ver Juliana
Vou ver Julianaína
Vou ver Juliana
(Musicada por Caetano Veloso.
Inédita em disco).