No Vozes em Casa mostramos o cd LIRA, um dos melhores lançamentos de 2011, o primeiro solo de sua carreira. Um disco cheio de canções memoráveis, com participações incríveis como Otto e Angela Ro Ro, produção de Pupilo e o verbo desse grande compositor que é José Paes de Lira. E ainda tem música nova da Céu, de Cris Braun e Mariana Aydar com Dominguinhos.
VOZES DO BRASIL BL.1
VOZES DO BRASIL BL.2
Gostou do cd? Baixe o disco e saiba mais sobre LIRA no site oficial do Lirinha que tem lindas fotos de Caroline Bittencourt.
Já está em produção o terceiro volume de entrevistas Vozes do Brasil. Ontem estive com Djavan no Rio de Janeiro e tive a sorte de presenciar a chegada do prêmio Grammy pelo disco Ária. Nessa foto ele folheia o Vozes do Brasil vol.2 que deixei de presente de aniversário. Não posso deixar de dizer aqui que o site oficial desse nosso querido é espetacular! Raras vezes consultei um site tão completo. Todos os discos com ficha técnica!!! Pra mim é o paraíso. Já escrevi aqui no blog sobre Djavan por ocasião do show que lhe rendeu mais esse Grammy. Estudando sua obra antes de fazer a entrevista me dei conta – outra vez – do quanto ele faz parte da minha vida com suas canções. Da minha e toda a torcida, claro. Releio o post aqui nesse link: Djavan Está na Cidade. E veja aqui o site do Djavan.
Saiu minha coluna no Estadão do último sábado. Muito feliz e honrada faço parte do time do Ouvido Absoluto junto com Roberto Muggiati(jazz), Gilberto Mendes(erudito), Nei Lopes(samba) e Claudia Assef(eletrônica). Escrevi esse último texto depois de voltar de Belém do Pará e me lembrando de uma linda viagem que fiz pra São Luiz do Maranhão convidada por Rita Ribeiro. Reproduzo aqui.
O BREGA É POP
Estive em Belém e voltei totalmente encantada pela cidade, seus sabores, seu calor e mais que tudo com a música do Pará. Ouvi a guitarrada dos Lobato, o tecnobrega de Gaby Amarantos, visitei uma aparelhagem, dancei o carimbó chamegado de Dona Onete e curti muito o pop kitsch de Felipe Cordeiro.
Felipe é um jovem músico, produtor, compositor e um dos principais nomes da cena contemporânea em Belém. Seu show é colorido, dançante e divertido. Ele se veste como os cantores do gênero, as letras falam de um amor descarado e as guitarras fazem aquele solinho safado de bom que a gente já pode identificar em varios artistas pelo país afora. O brega está contagiando o país. O acento aparece no trabalho de Karina Buhr, de Andreia Dias, de Bárbara Eugênia, na guitarra de Fernando Catatau, nas baladas doloridas do Pélico e até nas indefectíveis canções de amor de Marisa Monte.
Comecei a entender o brega em sua essência quando estive no Maranhão com as irmãs Elza e Rita Ribeiro pra conhecer a Festa do Boi. Foi uma semana linda, colorida, inesquecível, quando pude ouvir os diversos sotaques dessa festa: pandeirão, orquestra, matraca… É um mundo! E voltando do tradicional Boi do Maracanã, a pé na madrugada, passamos por um terreiro pequenininho, todo enfeitado, em frente à uma pequena capela. As meninas entraram pra uma bençãozinha rápida e sairam dançando juntas quando começou a tocar uma música no alto falante. Cena de filme do Lírio Ferreira em co-direção com Pedro Almodóvar! Tudo colorido e com essa mistura maravilhosa que é típica das festas populares no Brasil, a religião e o prazer. Não sei qual era a música, mas elas conheciam muito bem e se divertiram a valer. Esse é o brega. Música romântica, fácil, cheia de clichês, e boa de dançar junto.
A turma mais inteligente consome o brega que Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto resolvem gravar e deixar chique. Mas esperto mesmo é quem vai na fonte. Tem que ouvir Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e a música do Pará, o nosso pop-rock-brega-contemporâneo. E como já disse Rita Ribeiro, “tropicalistas somos todos nós”. O romance está na veia do brasileiro e essa visita ao cafona faz parte da nossa tradição. Voltando ao Caetano tropicalista, muito antes de gravar Peninha ele colocou o drama Coração Materno, de Vicente Celestino, na boca do povo mais descolado.
Marisa Orth que é atriz e cantora das boas, adora o brega. Fez uma apologia ao gênero com o show Romance Vol.II que tem exatamente esse acento dramático. Ela canta “Dores do Mundo” do repertório clássico do soul man Hyldon, “Sofre” de Tim Maia (ele mesmo um brega black funk soul) e a genial “Insanidade Temporária” de Flávio Souza e André Abujamra que é um brega legítimo – uma história de amor e morte! O clipe, dirigido por Ivy Abujamra é sensacional!
Brega é também como se chamam as casas de prostituição no norte e nordeste onde esse tipo de música de dançar coladinho sempre fez sucesso. Dos bregas foi pras rádios e virou gênero. Na definição da Enciclopédia da Música Brasileira se diz que o termo é usado formalmente desde 1982 e copio aqui o verbete: Brega – coisa barata, descuidada ou mal feita; sinônimo de cafona; música mais banal, óbvia, direta, sentimental e rotineira possível… E isso não é bom demais? Como já disse o poeta, não são ridículas todas as cartas de amor? O brega é pop e eu adoro.
Estive em Belém pra mais uma etapa do Conexão Vivo depois de passar por Belo Horizonte e Salvador. Com tudo que essas outras capitais tem de interessantes, Belém foi a mais encantadora. Seus cheiros e sabores, o calor, o final de tarde na beira rio, o Ver o Peso, as 11 Janelas, o casario tomado pelos vendedores ambulantes de dia a iluminados a noite, foi tudo bom. A música, claro, foi o destaque, a maior das surpresas. Conhecer de longe, ver um clipe, ouvir um cd, nem se compara com a experiência de estar alí com todo aquele cenário e clima, ouvindo a música que é feita pelos que nasceram nessa terra. Dona Onete e seu carimbó chamegado, Pinduca todo enfeitado pro show, Gaby Amarantos dominando a massa – na aparelhagem ou na praça – Felipe Cordeiro e sua guitarra brega, pop, descoladíssima, safada. O Pará é um mundo a se descobrir.
No Vozes vamos ter Fernanda Takai cantando Pinduca, Aíla com Dona Onete, Felipe Cordeiro com disco novo, trilha instrumental com os mestres da guitarrada e depoimentos muito bacanas, entre eles o de Nicolau Amador que faz o blog Pará Música. Tem ainda Arthur Nogueira que foi meu gentilíssimo cicerone pelos dias e noites na cidade.
Felipe Cordeiro
Esse programa especial que vai pro ar na rede Vozes do Brasil inaugura nossa parceria com a rádio Unama de Belém!!! Vejam que alegria! além de tudo trouxe mais essa novidade de lá.
Ensaio com 60 crianças no Nascedouro de Peixinhos em Recife. Naná Vasconcelos mostra como fazer e faz junto. Lindo de ver! Aqui elas se preparavam pro show do cd Sinfonia e Batuques que fechou a virada cultural de Recife no último final semana.
Mas foi em 2008 que Naná teve a idéia do projeto Lingua Mãe e reuniu crianças do Brasil, Portugal e Africa. Eles cantaram sob a regência de Naná, Ari Colares e Guelo na percussão e acompanhadas pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro com o maestro Gil Jardim. Emocionante…
Veja o teaser:
Quer mais Naná Vasconcelos? Vai no site oficial do mestre!
Foi na Casa de Francisca que encontrei Jorge Mautner pra essa entrevista. O filósofo poeta compositor escritor completou 70 anos de sabedoria. A primeira vez que o vi com Jacobina eu tinha 18 anos e foi numa noite quente e linda na USP. Um show pra estudantes que eles tiraram de letra. Admiro Mautner e sua obra. Sempre toco no rádio e acho maravilhosa a participação da dupla na Orquestra Imperial. Nossa entrevista vai pro ar nesse domingo na Eldorado e depois segue a rede Vozes do Brasil passando por Belo Horizonte, Curitiba e Brasilia até chegar em Salvador, Confira horários e emissoras na página acima VOZES DO BRASIL NO RADIO.
Non sense tropicalista e libertário: Guzzy: eu te amo Muzzy: eu te adoro
O grande sucesso da dupla Mautner/Jacobina em versão acústica.
Uma conversa com Marcelo Camelo pra ser boa não pode ser linear. A cabeça desse rapaz é um carrossel! E eu adoro! A gente fala de literatura, cinema, praia, apartamentos, computadores e música. Vai assunto volta assunto e a gente cai no disco, no show, no violão, no talento da Mallu.
O programa ficou com essa cara. Meio non sense, cabeça e coração. Foi tão gostosa a conversa que resolvi colocar no ar do jeito que foi. Brincadeira de voyeur auditivo pra você que curte o Vozes.
A poeta Alice Ruiz é mestre em hai kai e creio que justamente por sua capacidade de síntese está cansada do debate poesia versus letra de música. Nos encontramos numa festa essa semana e estávamos as duas ainda sob os efeitos do espetáculo Totatiando que Zélia Duncan apresentou em São Paulo em temporada no Sesc Belenzinho. Contrariando o nosso cansaço com o tema acabamos conversando sobre a poesia nas canções que viraram o estofo, a linha mestra, o texto enfim dessa linda encenação.
Há poesia nas canções de Luiz Tatit. Não são poemas, são até mais crônicas da miséria humana, da delicadeza de ser sensível nesse mundo bruto. E o irônico é que Luiz Tatit é um dos defensores da idéia de que letra é letra, poema é poema. Assim como Arnaldo Antunes, ele mesmo um poeta e excelente letrista. Concordo. Mas que a canção é um suporte pra poesia como bem disse Paulo Leminski já nos anos 70, ah, isso é. Até mesmo em Luiz Tatit. “Esboço”, ouso dizer, me lembra Manuel Bandeira! Compare comigo: “Corpo de moleque / corpo de borracha/ todo amolecido / dobra tudo / nada racha/ dizem que é um esboço / que é alguém de carne e osso/ dizem que é um colosso/ por dentro e por fora / é gente como a gente/ a gente sente / porque se aperta ele chora”. Agora, Bandeira: “Quando eu tinha seis anos/ ganhei um porquinho da India./ que dor de coraçao me dava/ porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!/Levava ele pra sala / pros lugares mais bonitos mais limpinhos / ele não gostava:/queria era estar debaixo do fogão./Nao fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…/ meu porquinho da India foi minha primeira namorada.”
Há poesia na letra das canções. Ninguém há de negar. É claro que há poemas que não se prestam à música, e há os que são feitos já com ritmo, com métrica, como se nascessem pra virar letra e ganhar público além dos livros. Ouça “Retrato do Artista Quando Coisa” de Manoel de Barros com Luiz Melodia. Só voz e cordas, é todo um poema.
Um efeito colateral muito desejável desse encontro entre os poetas e os músicos é que a poesia pode se tornar popular. Até mesmo a poesia contida nesse canto falado de Luiz Tatit, nesse discurso poético que muitas vezes permanece escondido na forma. Quando Zélia Duncan, uma artista popular, leva pro palco de um teatro um espetáculo que propõe esse diálogo entre as artes presta um serviço imenso para a cultura brasileira. Mistura, apresenta, transforma, renova, dá de presente a felicidade que é ouvir poesia sem saber que é isso que se está ouvindo. O tal conceito da mascara de Deleuze, primeiro você seduz com o simples, com o fácil e gostoso e sem querer o profundo se estabelece.
A arte de escutar é a mais acessível de todas as formas de arte. E nos livra da ignorância através da possibilidade do conhecimento da beleza. Escutar é fundamental para o ofício da música. Monica Salmaso é tida entre os instrumentistas excelentes com quem ela grava e se apresenta como mais um musico entre eles, tal é o nivel de conversa que se dá. O resultado é excepcional como se ouve em Alma Lirica Brasileira, por exemplo. Não por acaso José Miguel Wisnik e Tom Zé misturam muito música e futebol. Como ouvi de um amigo esses dias: gosto de bater bola com quem sabe como eu jogo. Lembrei de ter ouvido um critico de musica dizer que Chico Buarque esta acomodado porque toca com os mesmos musicos há tempo demais, eu digo que ele está confortável tocando com os amigos. Bandas são formadas assim. Afinidades mais do que simplesmente musicais. Amigos tocando juntos. O Clube da Esquina, momento icônico da história da nossa música, foi exatamente isso.
Também há conversas pouco amigáveis, desafios musicais. Dizem que aquele encontro histórico entre Elis Regina e Hermeto Pascoal em 79 foi muito tenso. Ao vivo em Montreux eles fizeram juntos alguns clássicos sem combinar antes. Ficou incrível, mas já ouvi fontes seguras dizendo que Elis ficou mesmo muito aborrecida.
Voltando à felicidade atraves da troca legitima me comovi muito com Totiando. Conheço bem a obra de Luiz Tatit mas com essa luz nunca tinha visto. Que bons ventos levem longe esse discurso. E que mais diálogos como esse aconteçam por aqui. Que mais e mais se tenha poesia pra tocar no radio – nome inspiradíssimo de um livro que compila as letras/poemas de Alice Ruiz que viraram canção nas parcerias com Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e muitos mais. Alice e Antonio Cicero são nossos poetas mais ativos nesse universo. Procure saber. Leia Manuel Bandeira em Villa Lobos, Cassiano Ricardo em Secos e Molhados, Ferreira Gullar em Adriana Calcanhotto, Drummond em Milton Nascimento, Oswald de Andrade em Caetano Veloso. Há poesia na canção e em todo lugar.
*Texto publicado originalmente no Caderno C2+ Musica no jornal O Estado de São Paulo – coluna Ouvido Absoluto (24/09/2011)
Nesse domingo tranquilo me dei o prazer de ouvir velhas canções no Ipod mais antigo da casa. Me deparei com João Gilberto e o excelente Amoroso, disco que me destruiu de tristeza imcompreensivel aos 18 anos. Hoje, às vésperas de fazer 46, entendo tudo. Impossível não chorar ouvindo “Retrato em Branco e Preto“, de Chico Buarque e Tom Jobim, mesmo sem ter jamais vivenciado algo parecido. E João Giberto cantando é comovente, muito comovente. “Pra Machucar Meu Coração” de Ary Barroso que ele gravou no clássico Getz/Gilberto de 1964 é outra dessas pérolas, exemplos do melhor do nosso cancioneiro, com Tom Jobim ao piano.
Como é bom ouvir um bom cantor. E como são poucos os espaços em que se falam desses nossos cantores do Brasil.
Escrevi recentemente na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música, um texto sobre isso. Devo dizer que faltou espaço pra falar de todas as vozes masculinas incríveis que temos nesse país. Hoje, me lembrei deles depois de ouvir o Amoroso e peguei Foreign Song de Cetano Veloso, que é uma maravilha… que repertório bem escolhido, que deliciosas interpretações.
Coloco aqui João e Caetano. João canta Caymmi e Caetano, Arthur Hamilton. Standards da canção internacional.
E na sequência copio o texto da coluna do Estadão.
CANTORES DO BRASIL
Muito se fala que o Brasil é um pais de cantoras e é verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, às grandes divas da era do radio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Bethânia, a lista é infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zélia Duncan e a expoente máxima dessa geração – que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferença, Cássia Eller.
Da novissima geração tenho falado muito e graças ao meu trabalho no radio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um cd pela gravadora Jóia Moderna, o Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Rennó, Nina Becker e Bárbara Eugênia. O trabalho revela a diversidade do momento atual da música pop brasileira, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade única e inteligente de altissima qualidade.
Agora, e os cantores? Será que não é injusto dizer que esse país não é deles? Francisco Alves – o cantor das multidões; Orlando Silva – o rei da Voz. O charmoso Mário Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contrario dos aqui citados ídolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnológico. E Cyro Monteiro? Que divisão, que suingue! E o grande Jamelão arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o ultimo dos galãs do radio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava tão determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma prótese para parecer mais atraente à juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fenômeno! Quando eu era ainda uma iniciante no radio tive a oportunidade de entrevista-lo e foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi. Levei uma pilha de lps pro estúdio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, assíduo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e também com o microfone. Ciente da magia do veiculo e do poder de sedução da sua voz ele se dirigia diretamente às suas fãs e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!
E entre nossos cantores também há uma enorme diversidade de estilos, é claro. Até no mesmo gênero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simpatica, quase clássica. Luiz Melodia é pra mim um dos maiores, uma voz que não perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excelencia, criador de clássicos, é dessas vozes que eternizam uma canção. Caetano Veloso, em fases em que composiçao não vem tão linda e forte, grava como interprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, só recomendo ouvir em caso de dúvida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.
Mas temos hoje uma diferença interessante com relação ao tempo em que se chamava o Brasil de um país de cantoras ou em que o vozeirão de peito é que fazia fartura. Tenho a impressão que a mudança começou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa geração, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico César, por exemplo. São excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas não é o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da geração seguinte segue pelo mesmo caminho. Léo Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar é um cd de autor. Rômulo Fróes lembra até Paulinho na Viola na sutileza do registro mas é mais no discurso, na coerência da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretensões mas bem gostosinho.
Ainda assim há os que se esmeram no oficio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da França onde fez canto erudito. Filipe Catto é um raríssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na preparação vocal, e é um charme com seu jeito cool de bem comportado carioca. Diogo Poças lembra Mário Reis.
São muitos e só pra confirmar a teoria antropofágica tropicalista que vai até o amálgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacreditável. O país que mistura e transforma como nenhum outro não é só o país das cantoras ou dos cantores, é o país da canção. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.
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