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dois pedacinhos do que vem por aí…

Me deliciando com a seleção do Vozes desse domingo resolvi compartilhar duas coisinhas, dois duetos de ouvir balançando na rede olhando pro mar. O primeiro é um encontro de feras tirado de um lp chamado BossaSession de 1964. Taí a capa. Com Sylvia Telles e Lúcio Alves cantando Tom Jobim. Clássico! E depois Dorival Caymmi cantando Quem Vem Pra Beira do Mar com Adriana Calcanhotto. Comovente e inspirador. Ouça Aqui:

SYLVIA TELLES E LUCIO ALVES

ADRIANA CALCANHOTTO E DORIVAL CAYMMI

Ouve no Rádio Vê Aqui

É impossível fazer uma seleção e não ficar depois pensando a respeito do que me fez juntar uma música com a outra e de onde vieram aquelas gravações. Já falei muito sobre isso. Gosto das informações que vão aparecendo quase sem querer. É como tirar uma amostra de solo e pesquisar sedimentos, pura maluquice e diversão.
No play list dessa semana tem Erasmo Carlos cantando com Adriana Calcanhotto, Jorge Ben com “Que Nega é Essa” e Gilberto Gil com “Refavela” numa versão voz, violão e baixo do BandaDois.
Fui procurar essa turma no Youtube e acabei me jogando no groove de Tim Maia através do suíngue de Jorge Ben e caí num Roberto Carlos histórico. Achei gravações incríveis dos anos 70 que copiei aqui. Roberto foi o primeiro a gravar Tim Maia como todos sabem e fez isso estimulado por Carlos Imperial, uma figura polêmica mas muito importante pra música pop naquela época.

Roberto Carlos / Não Vou Ficar (Tim Maia)

Tim Maia / Idade

E agora da série “Ouve no Radio Vê Aqui”, a dupla Erasmo Carlos e Calcanhotto fazendo Gatinha Manhosa no programa do Sergio Groissman. No Vozes a gravação é “Imoral, Ilegal e Engorda”, mas essa eu não achei…

Erasmo e Adriana

E Benjor ainda Jorge Ben, cantando sua adorável musa Domingas acompanhado pelo saudoso grupo Originais do Samba.

Jorge Ben / Domingas

Daqui a pouquinho o Vozes entra na temporada de verão e vou postar aqui a nossa programação de melhores de 2010. O último especial do ano será com Gal Costa, ela mesma, comentando várias de suas gravações. A ver. E ouvir.

Borboletas, John Keats e Manoel de Barros

Voltei do cinema absolutamente encantada pela poesia. Não só a poesia romântica de John Keats, tema do filme, mas por toda ela. Pela experiência que um poema oferece. “Bright Star” é o nome de um poema de Keats e também dá nome ao filme – lamentávelmente traduzido para “O Brilho de Uma Paixão”. É uma pena. Se lembrarmos que os tradutores de Keats no Brasil são nada menos que Augusto de Campos e Manuel Bandeira, dá até uma tristeza.
Ouvi críticas severas ao filme de Jane Campion num almoço entre amigos mas também li um lindo artigo na Folha de São Paulo que me levou ao cinema. João Pereira Coutinho lembrou da proximidade de Keats com a poesia grega clássica que muito me atrai desde os tempos de faculdade. Tenho perdidos por aqui os livros traduzidos por José Paulo Paes, riquísimas antologias do período clássico grego e latino. De lá eu tiro Píndaro e seu poema sobre a efemeridade da vida e da beleza como um exemplo: “..o homem é o sonho de uma sombra, mas quando os deuses lançam sobre ele a sua luz, claro esplendor o envolve, e doce então é a vida.” A frase mais conhecida de Keats é “A think of beauty is a joy, forever”, onde quer que a vida breve nos leve – traduz Augusto de Campos. E Bandeira ainda faz graça completando: “Mas ele próprio sentiu, quanto essa alegria dói.
O filme de Jane Campion trata disso. Da beleza, da efemeridade, do amor romântico, do tempo que não existe mais. O amor é o cotidiano daquela familia que vive nos campos da Inglaterra. A jovem Fanny, musa de Keats, cria suas próprias roupas, ama dançar e acaba fazendo um viveiro de borboletas em seu quarto enquanto o poeta viaja até o mar. Keats cita as borboletas e o milagre da transformação da lagarta numa de suas cartas. É o suficiente para que a casa vire uma extensão do jardim.
Os poemas de Keats são fortemente ritmados e causam vertigem numa leitura apropriada. Ele fala dessa sensação da leitura de um poema para a sua apaixonada aluna e é um dos momentos mais bonitos do filme. Outro é quando ele fala da memória do toque, às vésperas da viagem que terminaria com sua morte.
O filme é lindo, colorido, doce, amoroso. Talvez eu tenha gostado só porque sou romântica, ou porque gosto de poesia no cinema, na literatura, na música e nas coisas banais desprovidas de poesia. Por isso, lembro aqui Manoel de Barros e seu “Retrato do Artista Quando Coisa” que foi lindamente gravado por Luiz Melodia num arranjo só de voz e cordas. Ficou divino. São poetas próximos. “Borboletas já trocam as árvores por mim, Insetos me desempenham…” Exceto pela forma, acredito que Keats gostaria disso.

Bright Star, o trailer do filme – pra dar mais vontade de assistir…

Prato de Flores, com Nação Zumbi, um exemplo mangue beat de poesia Manoel de Barros

Calcanhotto e Wally, uma dupla que firmou a canção como principal suporte poético da nossa época, como já dizia Leminski lá nos anos 70.

E, melhor que tudo, a tradução de Augusto de Campos para o poema clássico de Keats.

Endymion ( trecho) – John Keats – trad. Augusto de Campos

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida.

Parangolé Pamplona você mesmo guarda??

images-7 Logo agora que o Brasil começava a dar a devida importância para sua obra, o acervo de Helio Oiticica queima no Rio de Janeiro. Num incêndio trágico tudo o que era guardado na casa da família desse artista de vanguarda dos anos 50 e 60, o mais antenado com o mundo daquela época aqui no Brasil, foi destruído. Hélio Oiticica criou os famosos parangolés e vestiu com eles os moradores do morro da Mangueira. Oiticica fez as caixas penetráveis, obras de arte para entrar dentro, para vivenciar sensações, e uma delas se chamava Tropicália. Foi daí que surgiu o nome do movimento que revolucionou a música brasileira. E Caetano Veloso nem o conhecia pessoalmente quando o nome da obra lhe foi entregue de bandeja. Caiu como uma luva.
O penetrável Tropicália era formado por duas tendas com areia e brita espalhadas pelo chão, araras e vasos com plantas e uma espécie de labirinto que percorria a tenda principal, às escuras. Ao fundo um aparelho de televisão ligado. Helio Oiticica defendia a antropofagia como o único caminho da cultura verdadeiramente brasileira, original, não colonizada.

tropicalia_oiticica

Adriana Calcanhotto, ligada em cinema, literatura e artes plásticas fez sua homenagem com Parangolé Pamplona no disco Maritmo: “Parangolé Pamplona você mesmo faz, com um retângulo de pano de uma cor só… e é só dançar, é só deixar a cor tomar conta do ar…”

Na prestigiosa galeria de arte Tate Modern, em Londres, Helio Oiticica fez uma mostra histórica e levou seus parangolés tropicais.

O que mais me assusta nesse incêndio trágico é saber que obras e acervos espalhados por esse Brasil estão por aí nessa situação precária. Hoje perdemos a obra de Hélio Oiticia e a todo momento quando uma rádio muda de endereço, por exemplo, milhares de horas de gravações históricas, de documentos culturais importantíssimos, são literalmente jogados no lixo em nome da falta de espaço. Ou será por falta de vontade, de entendimento, de educação? Quando será que esse país se levará à sério? Quando será que os investimentos em cultura e educação ganharão a importância que tem as ampliações de portos, rodovias, duplicação de marginais…
Parangolé Pamplona você mesmo guarda?
É triste.

Pra Iemanjá com Caymmi e Calcanhotto

Sempre é tempo de render homenagens à rainha do mar. Especialmente porque vivemos tão longe da praia aqui em São Paulo. Adriana Calcanhotto fez mais um lindo disco com o tema azul, o mergulho, o salgado, o profundo, e dessa vez, no Maré, gravou Sargaço Mar de Dorival Caymmi com o violão de Gilberto Gil. Ficou lindo. E achei no YouTube essa ediçao de imagens com a canção.
Reproduzo aqui.

A proposito, estou lendo o livro de Beto Pandiani, “O Mar é Minha Terra”. Ele descreve cenas incríveis de suas vivências pelos oceanos do mundo. Por exemplo o céu refletido num mar de azeite de tão calmo, uma escuridão pontilhada de estrelas… Tem que ler! A resignificação da vida diante da imensidão.

capa do livro O Mar é MInha Terra

capa do livro O Mar é MInha Terra