Arquivo da tag: Alice Ruiz

Ouvido Absoluto: Há poesia na letra da canção

A poeta Alice Ruiz é mestre em hai kai e creio que justamente por sua capacidade de síntese está cansada do debate poesia versus letra de música. Nos encontramos numa festa essa semana e estávamos as duas ainda sob os efeitos do espetáculo Totatiando que Zélia Duncan apresentou em São Paulo em temporada no Sesc Belenzinho. Contrariando o nosso cansaço com o tema acabamos conversando sobre a poesia nas canções que viraram o estofo, a linha mestra, o texto enfim dessa linda encenação.

Há poesia nas canções de Luiz Tatit. Não são poemas, são até mais crônicas da miséria humana, da delicadeza de ser sensível nesse mundo bruto. E o irônico é que Luiz Tatit é um dos defensores da idéia de que letra é letra, poema é poema. Assim como Arnaldo Antunes, ele mesmo um poeta e excelente letrista. Concordo. Mas que a canção é um suporte pra poesia como bem disse Paulo Leminski já nos anos 70, ah, isso é. Até mesmo em Luiz Tatit. “Esboço”, ouso dizer, me lembra Manuel Bandeira! Compare comigo: “Corpo de moleque / corpo de borracha/ todo amolecido / dobra tudo / nada racha/ dizem que é um esboço / que é alguém de carne e osso/ dizem que é um colosso/ por dentro e por fora / é gente como a gente/ a gente sente / porque se aperta ele chora”. Agora, Bandeira: “Quando eu tinha seis anos/ ganhei um porquinho da India./ que dor de coraçao me dava/ porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!/Levava ele pra sala / pros lugares mais bonitos mais limpinhos / ele não gostava:/queria era estar debaixo do fogão./Nao fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…/ meu porquinho da India foi minha primeira namorada.”

Há poesia na letra das canções. Ninguém há de negar. É claro que há poemas que não se prestam à música, e há os que são feitos já com ritmo, com métrica, como se nascessem pra virar letra e ganhar público além dos livros. Ouça “Retrato do Artista Quando Coisa” de Manoel de Barros com Luiz Melodia. Só voz e cordas, é todo um poema.

Um efeito colateral muito desejável desse encontro entre os poetas e os músicos é que a poesia pode se tornar popular. Até mesmo a poesia contida nesse canto falado de Luiz Tatit, nesse discurso poético que muitas vezes permanece escondido na forma. Quando Zélia Duncan, uma artista popular, leva pro palco de um teatro um espetáculo que propõe esse diálogo entre as artes presta um serviço imenso para a cultura brasileira. Mistura, apresenta, transforma, renova, dá de presente a felicidade que é ouvir poesia sem saber que é isso que se está ouvindo. O tal conceito da mascara de Deleuze, primeiro você seduz com o simples, com o fácil e gostoso e sem querer o profundo se estabelece.

A arte de escutar é a mais acessível de todas as formas de arte. E nos livra da ignorância através da possibilidade do conhecimento da beleza. Escutar é fundamental para o ofício da música. Monica Salmaso é tida entre os instrumentistas excelentes com quem ela grava e se apresenta como mais um musico entre eles, tal é o nivel de conversa que se dá. O resultado é excepcional como se ouve em Alma Lirica Brasileira, por exemplo. Não por acaso José Miguel Wisnik e Tom Zé misturam muito música e futebol. Como ouvi de um amigo esses dias: gosto de bater bola com quem sabe como eu jogo. Lembrei de ter ouvido um critico de musica dizer que Chico Buarque esta acomodado porque toca com os mesmos musicos há tempo demais, eu digo que ele está confortável tocando com os amigos. Bandas são formadas assim. Afinidades mais do que simplesmente musicais. Amigos tocando juntos. O Clube da Esquina, momento icônico da história da nossa música, foi exatamente isso.

Também há conversas pouco amigáveis, desafios musicais. Dizem que aquele encontro histórico entre Elis Regina e Hermeto Pascoal em 79 foi muito tenso. Ao vivo em Montreux eles fizeram juntos alguns clássicos sem combinar antes. Ficou incrível, mas já ouvi fontes seguras dizendo que Elis ficou mesmo muito aborrecida.

Voltando à felicidade atraves da troca legitima me comovi muito com Totiando. Conheço bem a obra de Luiz Tatit mas com essa luz nunca tinha visto. Que bons ventos levem longe esse discurso. E que mais diálogos como esse aconteçam por aqui. Que mais e mais se tenha poesia pra tocar no radio – nome inspiradíssimo de um livro que compila as letras/poemas de Alice Ruiz que viraram canção nas parcerias com Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e muitos mais. Alice e Antonio Cicero são nossos poetas mais ativos nesse universo. Procure saber. Leia Manuel Bandeira em Villa Lobos, Cassiano Ricardo em Secos e Molhados, Ferreira Gullar em Adriana Calcanhotto, Drummond em Milton Nascimento, Oswald de Andrade em Caetano Veloso. Há poesia na canção e em todo lugar.

*Texto publicado originalmente no Caderno C2+ Musica no jornal O Estado de São Paulo – coluna Ouvido Absoluto (24/09/2011)

Prefere ouvir? Ouça Aqui:

Vozes do Brasil com a poesia de Torquato Neto e Waly Salomão

Existe uma discussão muito antiga sobre as diferenças entre letra de música e poesia. Já conversei muito sobre o tema com Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, enfim… com quase todo mundo que passa aqui pelo Vozes. Mas tem alguns poetas que fizeram música como poucos. Alice Ruiz é uma delas e tem até um livro publicado com um título que resume nossas discussões pela raiz: “Poesia Pra Tocar no Rádio”. Não é perfeito?
Mas essa semana vou destacar dois outros poetas, marginais e heróis: Torquato Neto e Waly Salomão.
Torquato foi da primeira turma de Tropicalistas, escreveu algumas jóias raras que hoje são clássicos da nossa música popular. Vamos pegar, por exemplo, “Geléia Geral”, uma parceria com Gilberto Gil que virou ícone . Segundo o compositor o poema já veio pronto pra virar música, pra ser “eletrificado” e Gil não mudou nenhuma vírgula. Na biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz, há uma citação de Paulo Leminski que fala dessa composição como uma síntese da obra do poeta: “a grande arte de Torquato, poeta das elipses desconcertants, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade.”
Gil e Torquato são parceiros em mais de 15 canções. Com Caetano ele fez “Mamãe Coragem”, outro ícone dessa época e desse movimento. Foi gravada por Nara Leão e por Gal Costa.
Waly Salomão conheceu Torquato no casamento de Caetano Veloso e Dedé. Waly e Jorge Salomão estavam chegando em Salvador, mas foi no Rio de Janeiro que a amizade se estabeleceu e eles fizeram juntos a revista Navilouca , que teve uma única edição mas fez barulho.
Waly fez simplesmente “Vapor Barato”, uma de suas várias parcerias com Jards Macalé, um símbolo da resistência pop, romântica, tropicalista, dos que ficaram aqui enquanto Caetano e Gil estavam no frio exílio londrino.
Foi Waly que dirigiu o antológico show Gal Fa-Tal com Lanny Gordin e sua guitarra acompanhando a cantora mais importante daquele momento. Waly atravessou movimentos, fez músicas com Caetano Veloso pro repertório de Maria Bethânia (“Mel” e “Talismã”), com Antonio Cícero – outro poeta ícone da música pop brasileira, fez um disco inteiro pra João Bosco (Zona de Fonteira),teve parceria com Lulu Santos gravado pelos Paralamas com grande sucesso (“Assaltaram a Gramática”), fez Cássia Eller finalmente encontrar Cazuza no show e cd Veneno Antimonotonia e teve muitos de seus poemas musicados por Adriana Calcanhotto anos depois da explosão contracultural de que foi protagonista. Calcanhotto acabou por ser uma de suas maiores intérpretes na música contemporânea. Waly colocou sua voz em “Pista de Dança” e a parceria “Fábrica do Poema” foi importante na carreira da compositora gaúcha .

Outro grande encontro de Waly foi com Luiz Melodia por quem o poeta tinha grande admiração. Foi Waly que mostrou “Pérola Negra” pra Gal Costa. Anos depois, Melodia retribui realizando o sonho de Waly Salomão de ter sua parceria com Macalé, “Mal Secreto”, gravado por ele. Mérito de Karla Sabah, cantora e documentarista. Olha só esse trecho do trabalho dela, que jóia rara!

E nesse vídeo, tirado de uma homenagem à Torquato Neto vamos ver Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso fazendo a lindíssima canção “Nenhuma Dor”. Torquato Neto merece ter a obra visitada, são tantas coisas lindas. “Três da Madrugada”, por exemplo é de morrer…

Mais um pedacinho para ouvir trechos de seus poemas com Paulo José e ainda mais do violão de Macalé. Muito bom também os cabelos negros de Wagner Tiso. Fantástico!

Por essas e outras eu toco essa semana no Vozes do Brasil duas canções feitas em parceria com esses mestres da poesia em forma de letra de música. Com Adriana Calcanhoto “Teu Nome Mais Secreto”, faixa do Maré; e com Gal Costa “A Coisa Mais Linda Que Existe”, uma gravação do final dos anos 60. E ainda tem Vinicius de Moraes com Clara Nunes. Poesia pra tocar no rádio.

Jussara Silveira, nossa amiga que é poeta sem ser.

Ando meio sem palavras, por isso vou só postar aqui um videozinho feito no Estúdio Outra Margem por Vange Milliet nos tempos em que o Vozes era feito de lá. Bons tempos, aliás.
Escolhi Jussara Silveira, cantora baiana de altíssimo nível, que Alice Ruiz e eu escolhemos como nossa amiga que é poeta sem ser formalmente poeta. No livro Vozes Vol.2 publicamos uma entrevista com ela que explica isso. E quem a conhece nem precisa ler, já sabe.

Neste vídeo, feito em novembro de 2007, Jussara é acompanhada dos músicos Luiz Brasil, Sérgio Reze e Tamina Brasil e interpreta a música “Uma canção por acaso” composta por Tiago Torres Da Silva e Pedro Jóia.

Poemas pelo ar!!!

images-6Nossa querida poeta Alice Ruiz é autora de muitas das melhores letras cantadas por Itamar Assumpção. E seus poemas são igualmente incríveis. Ela acaba de ganhar o prêmio Jabuti – o mais importante desse nosso país – com o livro [ dois em um ] . Nem preciso dizer que foi merecidíssimo! É de uma qualidade emocionante. Eu leio livros de poemas quase como consulto oráculos. Tem sempre um recadinho bom. E os da Alice são os melhores. Vira e mexe ela me traduz e eu faço uso de sua arte, sabedoria e ciência para meu próprio bem.
Somos amigas. E isso me enche de felicidade. Tomamos muito café pra jogar conversa fora e colocar os sonhos em dia. Brinco que não faço suas oficinas de haicai porque me aproveito das lições que recebo passeando ao seu lado, vou “catando a poesia que entornas no chão”.
Eu frequento o blog de Alice Ruiz (o link tá aqui na listinha ao lado) e outro dia tive uma surpresa. Um dos comentários sobre um poema que ela me deu de presente foi um outro poema. Toda vaidosa reproduzo os dois aqui.

Pássaros Para Patrícia Palumbo
Enviado por Alice, sex, 04/09/2009

revoada no jardim
o sabiá sabe a hora
Vozes do Brasil

-x-
rádio ligado
o sanhaço se assanha
Vozes do Brasil

-x-
Vozes do Brasil
o bem-te-vi avisa o bando
para vir ouvir

Enviado por Alvaro Posselt em qua, 09/09/2009.

Pela Lumen de Curitiba, ouço sempre a P.P. no Vozes do Brasil.

Suave como chumbo

Todas as Vozes

de Patrícia Palumbo

images-5 Essa é a capa do livro que ganhou o Jabuti desse ano, categoria poesia. Saiu pela Iluminuras. Dois em Um reúne poesias do já premiado Vice-Versos e do Pelos Pelos, de 1984. Nesse domingo, Alice Ruiz disse ao Diário do Grande ABC: “Decidi relançá-los neste formato porque é junção de duas décadas de produção literária, os anos 1970 e 1980. Para mim é o fechamento de um ciclo mesmo”, e ela ainda diz que prepara obra inédita que deve ser entregue até dezembro. Espero ansiosa!

MUSICA, VINHO E LAREIRA NA SERRINHA

Foi o oitavo ano do Festival de Artye da Serrinha. Evento que reune no inverno uma série de atrações numa fazenda em Bragança Paulista. O idealizador é o cenógrafo e artista plástico Fábio Delduque que entre outras coisas fez os cenários de Mart’nália e a capa do mais recente cd de Mariana Aydar.
É minha segunda participaçao e outra vez levei o filme Vozes Do (Co) mentado, que fiz com Helena maura e Thiago Taboada por acasião do lançamento do meu primeiro livro de entrevistas.
Passar o filme e depois conversar à respeito é uma atividade que eu adoro. Me dá uma nostalgia boa, me remete direto aos bons e fortes sentimentos ligados àquele momento especial da minha vida. O lançamento do primeiro livro, uma série de shows lindos pra celebrar com um elenco de artistas maravilhosos: Arnaldo Antunes, Itamar Assumpcao, Moska e Chico César, Zélia Duncan e Ná Ozzetti, Rita Ribeiro, Daúde, Luiz Melodia…. Foram quatro noites inesquecíveis.

o privilégio de ouvir boa música feita assim de pertinho...

o privilégio de ouvir boa música feita assim de pertinho...

Nessa foto, registrada com minha maquininha cor de rosa, Marcia Castro faz seu show depois da conversa e do filme. Lareira acesa, vinho, amigos e o som dessa baiana cheia de talento. Minha filha Gabriela, no meio do show, veio dizer ao meu ouvido: “essa moça ainda vai fazer muito sucesso…”
Pra mim ela já faz.
Alice Ruiz estava lá na platéia, minha querida amiga e poeta que admiro, com seus alunos de hai cai; Dudu Tsuda, músico original e performático, fez uma instalaçao sonora entre as árvores; Tatá Aeroplano também estava lá com seu chapéu e idéias geniais; Elisa Stecca passou a semana com uma turma em sua oficina “A Pele”; e ainda espalhados pela fazendo mil e uma atividades do Teatro da Vertigem.
Fui embora no sábado cedo e perdi o show de Mariana Aydar no galpão Busca Vida, mas trouxe uma cachaça muito boa e mais essa deliciosa experiência de compartilhar o que penso com um monte de gente bacana.
No ano que vem tem mais.