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Marcia Castro no Vozes em Casa – Ouça Aqui

Mais um programa pra ouvir com prazer. Márcia Castro veio fazer o Vozes em Casa e fizemos quase um faixa a faixa do seu novo cd “De Pés no Chão”.
Aproveito pra copiar aqui um texto que escrevi sobre essa artista que eu tanto admiro.
Aperte o play pra ouvir o programa e leia o texto “Coração Selvagem” logo abaixo.


VOZES EM CASA COM MARCIA CASTRO BL.01


VOZES EM CASA MARCIA CASTRO BL.02

O Coração Selvagem de Márcia Castro

Foi naquele pequeno e histórico porão que era o teatro Crowne Plaza que vi Márcia Castro pela primeira vez. A jovem cantora baiana fez uma temporada e virou cult na cidade de São Paulo. Demorei pra ir mas no momento em que ela entrou, como todos os outros, fiquei absolutamente surpresa, enfeitiçada e comovida com sua presença no palco.

Uma moça diferente, uma garota moderna, contemporânea, sem nenhum traço do convencional, do esperado e conhecido tempero da música de sua terra mas com aquela marca da verdadeira baiana de Geraldo Pereira, a que entra na roda e sabe deixar a mocidade louca. Ela tem qualquer coisa daquela Gal Costa anos 70 que gravava Wally Salomão e Jards Macalé e que foi a musa de um exilio jovem e contracultural.
Marcia Castro tem esse lugar um pouco pela escolha do repertório e mais na atitude que revela liberdade. Tem aquela voz que você quer ouvir cantando as suas preferidas e algumas das minhas ela já cantou. No Crowne ouvi Lágrimas Negras, de Mautner e Jacobina, com Tom Zé ela cantou O Filho do Pato no Estudando a Bossa, do repertório das canções de Marina Lima fez Meu Doce Amor, de Itamar cantou a sensualissima Beijo na Boca com acento rock’n roll, trouxe pros nossos ouvidos carentes o melhor do bardo esquecido Belchior, e ao mesmo tempo visita seus contemporaneos como Luciano Salvador Bahia de quem gravou a excelente Queda.
Inventou a Pipoca Moderna, uma reunião de cantoras que se frequentam, se admiram artisticamente e tem em comum o que ela chama de matriz negra, uma sonoridade afro/baiana/brasileira/contemporânea. Nessa organização de conteúdo se revela uma artista que pensa, que tem estofo para a reflexão sobre seu oficio.
Ao mesmo tempo é um animal em cena. É o próprio Coração Selvagem de Belchior, o anjo rebelde, o arco iris, a que esconde um beijo embaixo do blusão.

O que ela apresenta nos palcos não cabe nos discos. Por isso não se pode conhecer Marcia Castro só nos cds. É pouco.
Há que se ouvir seu repertorio de outsiders numa noite fria do Festival de Arte da Serrinha ou num palco de praia em Salvador pulando Doces Bárbaros.
Marcia chega ao segundo disco trazendo na sua música a já tradicional mistura dos Novos Baianos com as bençãos do pop contemporâneo, indo mais longe. Nós, na massa, vamos logo atrás.

No portal Natura Musical tem Preta Pretinha pra download. :) )
E aqui na Livraria Cultura um link pr comprar o cd “De Pés no Chão

Vai cantar o que?


Saiu hoje, sábado 26 de fevereiro, a minha coluna no Ouvido Absoluto do C2+Música do Estadão. Inspirada pela notícia do novo cd de Gal Costa escrevi sobre repertório. Caetano Veloso está compondo o disco inteiro pra ela. Ele já fez lindas canções para diversas musas cantoras. Entre elas, Angela Ro Ro com a magnifica “Escandalo”. Achei uma gravação antiga.

E pra Mart’nália tem a incrível “Pé do Meu Samba”. Aqui os dois juntos.

Falei também da escolha de repertório bem feita. Um bom exemplo é o cd “Eu Me Transformo em Outras” de Zélia Duncan. Veja o que é “Doce de Côco”

O link pra coluna na íntegra está aqui.

GAL, a baiana que deixa a mocidade louca!

Ninguém representou melhor a juventude dos anos 60, 70 no Brasil do que Gal Costa. Uma mulher linda, libertária, dando seu recado de novos tempos com pés descalços, muita voz e atitude. Fez espetáculos antológicos, gravou discos que representavam sua geração na arte e no comportamento com capa de Hélio Oiticica, poemas de Torquato Neto, Waly Salomão e Capinam, músicas novas de Caetano, Gil, Melodia, Jorge Ben, João Donato. Sua voz foi responsável por grandes sucessos na carreira desses autores e outros mais. Fez o Brasil cantar Caymmi e Ary Barroso, deu novos ares pra Chico Buarque e Tom Jobim. Gal é uma das maiores cantoras do Brasil.

Veja aqui Jô Soares entrevistando Gal Costa e ela cantando Luiz Melodia.

E quando digo isso não estou sozinha. O poeta Torquato Neto em sua Geléia Geral escreveu em 1971 por ocasião do show Gal a Todo Vapor:

“Disse e repito: Gal é a maior cantora. E garanto.
E você, bobão tropicalista, não venha me falar em épocas: todo mundo sabe que existem cantoras maiores em cada “época”, para todas as “épocas”, e que Aracy é a maior cantora e que Angela e Dalva também são as maiores e que Elizeth ainda é a maior cantora. Mas se você quer saber mesmo da maior cantora, a que sintetiza melhor e mais profundamente todas as “épocas” aqui, a mais quente, perfeita e livre e eu lhe digo, bobão: Gal. “

Aqui ela canta Torquato Neto.

Agora cantando Caetano Veloso.

E registrando pra história uma canção de Roberto e Erasmo Carlos.

No programa Ensaio, do gênio Fernando Faro, fazendo Macalé e Duda com o Som Imaginário.

Quando ela esteve em São Paulo pra lançar o cd Hoje em 2005 aproveitei sua presença no estúdio e espalhei na sua frente uns 20 discos da carreira de Gal Costa. Fomos escolhendo músicas pra comentar e daí saiu um material precioso que guardei por todos esses anos esperando a hora de montar um programa especial.
Com o lançamento da caixa Gal Total resgatei essa gravação e o resultado vai pro ar a partir dessa semana no Vozes do Brasil em todas as emissoras que fazem parte da nossa redinha.
Claro que não dá pra esgotar o tema em uma hora de programa. Gal Costa gravou seu primeiro compacto no final dos anos 60 e continua em atividade. Precisaria de mais uns 3 especiais como esse.
Mas, mesmo sendo um só, um recorte, uma pequena parte, não dá pra perder. A partir desse domingo na Eldorado em São Paulo as 20hs e na sequência na Lumen, Inconfidência, Educadora, Litoral e já já Nacional em Brasília. Confira horários e emissoras nesta página e veja porque Torquato Neto e eu temos Gal Costa em tão alto conceito.

Esses livros que eu leio…

Por influência de minha mãe, meus irmãos e eu sempre lemos muito. Desde pequenos. E quando adolescente, virginiana, descartava os livros que não me diziam nada, que não me serviam. Curioso. Até hoje tenho uma relação estreita, íntima, essencial com esses objetos que levo pra cama, pra praia, pro avião, não vivo sem e é neles que busco o entendimento das misérias do cotidiano ou dos intrincados problemas existenciais.
Por tudo isso quando ouvi Cássia Eller cantando “Sensações” de Luiz Melodia me identifiquei de imediato.

“Esses livros que eu leio causam sensações…” e são como oráculos que consulto regularmente. Romances, poemas, cartas, filosofia, biografias, fábulas…
Lembro dos tempos de faculdade quando li “Les Liansons Dangereuses”- que virou filme pelo menos duas vezes como “Ligações Perigosas” – fiquei na maior onda de escrever cartas a torto e a direito (o que, confesso, faço até hoje); quando li “Crime e Castigo”, aos 18 anos, fiquei quase psicótica; quando li “O Morro dos Ventos Uivantes” fiquei paralisada como o personagem principal na frente daquela porteira, não saia dessa página…
E assim é. Não consigo viver o que seja sem buscar nos livros um precioso auxílio. Seja pra me entender melhor, seja pra melhor dizer o que eu sinto ou penso ilustrando a minha parca retórica com as geniais sacadas alheias. E, ora, porque não? Não é pra isso que servem os livros?
Disso sabe bem Caetano Veloso que fez um cd chamado Livro e que vive se referindo à poetas, escritores e afins. Calcanhotto também faz isso muito bem. De Melodia já falei, mas vale lembrar o Retrato de Um Artista Quando Coisa, um Manoel de Barros lindo que virou canção arranjada para voz e cordas… um golpe direto no peito.

lilya e maiakovski

Sobre poesia e música já falei muito por aqui e da minha predileção por Maiakovski pra falar de amor de perdição, acho que só entre amigos. Pois bem, Caetano musicou poemas para a peça O Percevejo em 1981. O espetáculo foi dirigido por Luiz Antonio Martinez Correa, com a participação de Dedé Veloso como atriz. Lembro bem do espetáculo no Sesc Pompéia em São Paulo. Uma das canções da trilha, “O amor”, foi sucesso na voz de Gal Costa.

O Amor (sobre poema de Wladimir Maiakovski)

Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão
O Século Trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Vem daí as tais misérias do cotidiano, uma expressão que adoro, vertida do russo para o português por Augusto de Campos. Maiakovski foi um poeta moderno, político e rasgado de romance quando se dedicava ao amor. Para Lilia Brick ele fez um dos poemas mais lindos que já ouvi na vida e que reproduzo aqui:

Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
Lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
O meu amor – duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que ti encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
Num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
Ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Maiakóvski
26 de maio de 1916. Petrogrado.
Tradução de Augusto de Campos

Tarsila

Volto aos livros pra dizer que leio agora um relato inacreditável, corajoso e belo. São as cartas entre Tarsila do Amaral, sim ela mesma a maravilhosa Tarsila do Abaporu, e Anna Maria Martins com o jornalista Luis Martins. Ele foi casado com as duas. Em épocas diferentes. Era muito mais novo que Tarsila, foi seu último companheiro, viveram juntos por 18 anos. Com Anna Maria foram 29. Ainda não terminei, mas estou absolutamente encantada por essa história de amor imenso, compreensão e generosidade. O livro se chama Aí Vai Meu Coração e só isso bastaria pra que o lesse até o final.
Estou só começando, logo mais eu conto o resto. Deixo agora o computador, vou pegar meus óculos pra ler e esquecer as misérias do meu cotidiano com as vidas de Tarsila, Luis e Anna.
Esses livros que eu leio… são a minha salvação.

Vozes do Brasil com a poesia de Torquato Neto e Waly Salomão

Existe uma discussão muito antiga sobre as diferenças entre letra de música e poesia. Já conversei muito sobre o tema com Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, enfim… com quase todo mundo que passa aqui pelo Vozes. Mas tem alguns poetas que fizeram música como poucos. Alice Ruiz é uma delas e tem até um livro publicado com um título que resume nossas discussões pela raiz: “Poesia Pra Tocar no Rádio”. Não é perfeito?
Mas essa semana vou destacar dois outros poetas, marginais e heróis: Torquato Neto e Waly Salomão.
Torquato foi da primeira turma de Tropicalistas, escreveu algumas jóias raras que hoje são clássicos da nossa música popular. Vamos pegar, por exemplo, “Geléia Geral”, uma parceria com Gilberto Gil que virou ícone . Segundo o compositor o poema já veio pronto pra virar música, pra ser “eletrificado” e Gil não mudou nenhuma vírgula. Na biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz, há uma citação de Paulo Leminski que fala dessa composição como uma síntese da obra do poeta: “a grande arte de Torquato, poeta das elipses desconcertants, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade.”
Gil e Torquato são parceiros em mais de 15 canções. Com Caetano ele fez “Mamãe Coragem”, outro ícone dessa época e desse movimento. Foi gravada por Nara Leão e por Gal Costa.
Waly Salomão conheceu Torquato no casamento de Caetano Veloso e Dedé. Waly e Jorge Salomão estavam chegando em Salvador, mas foi no Rio de Janeiro que a amizade se estabeleceu e eles fizeram juntos a revista Navilouca , que teve uma única edição mas fez barulho.
Waly fez simplesmente “Vapor Barato”, uma de suas várias parcerias com Jards Macalé, um símbolo da resistência pop, romântica, tropicalista, dos que ficaram aqui enquanto Caetano e Gil estavam no frio exílio londrino.
Foi Waly que dirigiu o antológico show Gal Fa-Tal com Lanny Gordin e sua guitarra acompanhando a cantora mais importante daquele momento. Waly atravessou movimentos, fez músicas com Caetano Veloso pro repertório de Maria Bethânia (“Mel” e “Talismã”), com Antonio Cícero – outro poeta ícone da música pop brasileira, fez um disco inteiro pra João Bosco (Zona de Fonteira),teve parceria com Lulu Santos gravado pelos Paralamas com grande sucesso (“Assaltaram a Gramática”), fez Cássia Eller finalmente encontrar Cazuza no show e cd Veneno Antimonotonia e teve muitos de seus poemas musicados por Adriana Calcanhotto anos depois da explosão contracultural de que foi protagonista. Calcanhotto acabou por ser uma de suas maiores intérpretes na música contemporânea. Waly colocou sua voz em “Pista de Dança” e a parceria “Fábrica do Poema” foi importante na carreira da compositora gaúcha .

Outro grande encontro de Waly foi com Luiz Melodia por quem o poeta tinha grande admiração. Foi Waly que mostrou “Pérola Negra” pra Gal Costa. Anos depois, Melodia retribui realizando o sonho de Waly Salomão de ter sua parceria com Macalé, “Mal Secreto”, gravado por ele. Mérito de Karla Sabah, cantora e documentarista. Olha só esse trecho do trabalho dela, que jóia rara!

E nesse vídeo, tirado de uma homenagem à Torquato Neto vamos ver Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso fazendo a lindíssima canção “Nenhuma Dor”. Torquato Neto merece ter a obra visitada, são tantas coisas lindas. “Três da Madrugada”, por exemplo é de morrer…

Mais um pedacinho para ouvir trechos de seus poemas com Paulo José e ainda mais do violão de Macalé. Muito bom também os cabelos negros de Wagner Tiso. Fantástico!

Por essas e outras eu toco essa semana no Vozes do Brasil duas canções feitas em parceria com esses mestres da poesia em forma de letra de música. Com Adriana Calcanhoto “Teu Nome Mais Secreto”, faixa do Maré; e com Gal Costa “A Coisa Mais Linda Que Existe”, uma gravação do final dos anos 60. E ainda tem Vinicius de Moraes com Clara Nunes. Poesia pra tocar no rádio.

Noite da Céu no Vozes do Brasil

Depois de viciar no Vagarosa fui entrevistar a Céu pro programa. Ela estava num daqueles dias em que a artista recebe mil jornalistas e tvs, mas do rádio, só eu… assim eu gosto mais.
E tivemos um delicioso encontro sobre o cd, seus parceiros de empreitada, seu jeito malemolente de ser.
No Vozes dessa semana Céu é o destaque (hoje no ar pela Eldorado em São Paulo, sábado as 13hs em Santos pela Litoral FM, as 18hs em Curitiba pela Lúmen e na próxima terça pela Inconfidência em BH as 23hs).
Aproveitei o embalo meio reggae, meio roots e coloquei Patativa do Assaré com Daúde, Chico César cantando forró, Junio Barreto e sua Santana e ainda pra fechar lindamente Elza Soares tangueando Fadas de Luiz Melodia e Gal Costa e Lanny Gordin, fatais, com Dê um Rolê (“eu sou amor da cabeça aos pés…” – ela canta do alto de seus 20 e poucos anos nos loucos 70).
Resumindo, o programa de hoje tá uma delícia!

Só pra quem vem ao blog tem essa versão que achei no YouTube com os Novos Baianos, música deles, com a guitarra de Pepeu, claro.