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Elis e Nara

Muito  se ouviu falar e muito se escreveu hoje sobre duas grandes estrelas da nossa música: Elis Regina e Nara Leão. Elis pela lembrança de sua morte, lá se vão 30 anos, e Nara pelo aniversário, ela completaria 70 não fosse o cancer que a levou precocemente.
As duas tem muitas diferenças, a começar pelo estilo. Nara foi cem por cento bossa nova no jeito de cantar mesmo um samba de Zé Kéti ou um pop clássico de Roberto e Erasmo. Uma mulher cheia de opinião e atitude mas com uma voz pequena se comparada ao furação Elis. Essa cantava de todo e qualquer jeito. Cheia de voz. E também de opinião. Dramática, cool, intensa, brejeira, não por acaso deixou tanta saudade e tanta vontade por uma voz que a substituisse nos corações do Brasil. Nunca houve. Até hoje, ninguém.
Nara e Elis muitas vezes estiveram de lados opostos como foi o caso da divertida e quase patética história da passeata contra as guitarras em 1967 que teve Elis na linha e frente ao lado de Gilberto Gil. Todos já sabem que nessa época Elis foi uma paixão para o compositor baiano. O encontro rendeu gravações memoráveis e canções históricas como “O Compositor me disse” , “Amor Até o Fim” e tantas outras. Nara assitiu a passeata da janela do hotel achando tudo uma bobagem, como de fato mostrou a história pouco tempo depois com Gilberto Gil e os Mutantes arrasando num festival de música com guitarras elétricas. Ao lado dela Caetano Veloso, que conta de maneira bastante divertida esse episódio no livro Verdade Tropical.
Essa é minha homenagem entre tantas milhares de outras pra essas duas maravilhosas personagens do nosso Brasil. Mulheres incríveis, artistas extraordinárias.
Quando penso no que elas poderiam estar fazendo hoje tenho a impressão de que estariam ambas gravando a turma nova como por exemplo Marcelo Camelo, Jeneci e Rômulo Fróes  ao lado dos parceiros de toda vida. Mantendo assim a tradição que ajudaram a criar das grandes intérpretes, vozes da história desse país.

Fechado pra Balanço (Gilberto Gil) do Lp Elis em Pleno Verão, 1970.

Mamãe Coragem (Caetano Veloso/Torquato Neto) do Lp Tropicália ou Panis et Circensis, 1968.

Cantando junto…

No final de semana do Festival Natura Nós fui entrevistar Vanessa da Mata sobre seu novo disco, “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias”. Só de esperar por ela na passagem de som já me diverti horrores ouvindo aquele delicioso convite à felicidade que é “Ai, Ai, Ai…”. O banho de chuva se anunciava e caiu mesmo na tarde do show. Saí de lá com vontade de belas praias e cachoeiras…
Bom, ouvindo o cd novo descendo a serra em direção ao mar, chego finalmente na linda parceria com Gilberto Gil, a última faixa do disco, “Quando Amanhecer”. Virou looping. Não parei mais de ouvir até chegar em casa, decorei a letra, enlouqueci com a beleza daquela harmonia meio dissonante, timbragem perfeita das duas vozes, virou minha canção preferida da semana.
Lembrei de Cássia Eller me contando que sempre cantava junto com Marisa Monte, colocava o disco dela na vitrola e ficava em casa feliz da vida fazendo dueto com uma de suas vozes preferidas…
Fiz a mesma coisa com Vanessa e Gilberto Gil. Cantei “Quando Amanhecer” todos os dias pela manhã inventando um trio e fazendo de conta que a canção foi feita pra mim. É pra isso mesmo que elas servem, não é? As canções, eu digo.
Compartilho aqui com vocês essa beleza de música.

E falando em cantar junto, vejam esse encontro entre Norah Jones e Keith Richards que o jornalista Sérgio Martins postou um dia desses e eu roubei. Adoro os dois mas nunca poderia imaginar que se dessem bem dividindo o microfone. A canção se chama “Love Hurts” e foi gravada num tributo ao maluco Gram Parsons, o cara que mostrou o country norte-americano pros Stones e estava por perto na época do excelente álbum Let it Bleed.

Gilberto Gil, as guitarras e seu incrível violão

Já é bem conhecida a história da época dos Festivais quando houve aquela “passeata contra as guitarras”. Uma estratégia para divulgar um programa de tv, o Frente Única, que tinha Geraldo Vandré entre os apresentadores e principais defensores da MPB. Gilberto Gil participou, mas estava do outro lado. Estava curioso com os novos sons, querendo universalizar a nossa música pop, encantado com os Beatles e as novidades que vinham de fora. Foi logo depois que ele chamou os Mutantes com suas guitarras e atitude para defender “Domingo no Parque” por indicação de Rogério Duprat.
É conhecido também o talento de Gil como músico instrumentista. Sempre que aparece com seu violão é sensível a diferença, a personalidade, a delicadeza que ele impõe à canção. Quando ele se acompanha, sozinho, nos proporciona momentos especiais e por isso é tão bem vindo esse novo trabalho acústico. Liminha, que foi produtor do BandaDois, resume o trabalho como uma volta ao começo. Quem disse que é fácil ser simples?

A linha e o linho

Agora, pra lembrar daqueles anos loucos, vamos ver Gilberto Gil encerrando um programa de tv com Caetano Veloso aparecendo no final só de farra. Eles tinham acabado de voltar do exílio. Reparem nas imagens da coxia.

back in bahia

Vozes do Brasil com a poesia de Torquato Neto e Waly Salomão

Existe uma discussão muito antiga sobre as diferenças entre letra de música e poesia. Já conversei muito sobre o tema com Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, enfim… com quase todo mundo que passa aqui pelo Vozes. Mas tem alguns poetas que fizeram música como poucos. Alice Ruiz é uma delas e tem até um livro publicado com um título que resume nossas discussões pela raiz: “Poesia Pra Tocar no Rádio”. Não é perfeito?
Mas essa semana vou destacar dois outros poetas, marginais e heróis: Torquato Neto e Waly Salomão.
Torquato foi da primeira turma de Tropicalistas, escreveu algumas jóias raras que hoje são clássicos da nossa música popular. Vamos pegar, por exemplo, “Geléia Geral”, uma parceria com Gilberto Gil que virou ícone . Segundo o compositor o poema já veio pronto pra virar música, pra ser “eletrificado” e Gil não mudou nenhuma vírgula. Na biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz, há uma citação de Paulo Leminski que fala dessa composição como uma síntese da obra do poeta: “a grande arte de Torquato, poeta das elipses desconcertants, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade.”
Gil e Torquato são parceiros em mais de 15 canções. Com Caetano ele fez “Mamãe Coragem”, outro ícone dessa época e desse movimento. Foi gravada por Nara Leão e por Gal Costa.
Waly Salomão conheceu Torquato no casamento de Caetano Veloso e Dedé. Waly e Jorge Salomão estavam chegando em Salvador, mas foi no Rio de Janeiro que a amizade se estabeleceu e eles fizeram juntos a revista Navilouca , que teve uma única edição mas fez barulho.
Waly fez simplesmente “Vapor Barato”, uma de suas várias parcerias com Jards Macalé, um símbolo da resistência pop, romântica, tropicalista, dos que ficaram aqui enquanto Caetano e Gil estavam no frio exílio londrino.
Foi Waly que dirigiu o antológico show Gal Fa-Tal com Lanny Gordin e sua guitarra acompanhando a cantora mais importante daquele momento. Waly atravessou movimentos, fez músicas com Caetano Veloso pro repertório de Maria Bethânia (“Mel” e “Talismã”), com Antonio Cícero – outro poeta ícone da música pop brasileira, fez um disco inteiro pra João Bosco (Zona de Fonteira),teve parceria com Lulu Santos gravado pelos Paralamas com grande sucesso (“Assaltaram a Gramática”), fez Cássia Eller finalmente encontrar Cazuza no show e cd Veneno Antimonotonia e teve muitos de seus poemas musicados por Adriana Calcanhotto anos depois da explosão contracultural de que foi protagonista. Calcanhotto acabou por ser uma de suas maiores intérpretes na música contemporânea. Waly colocou sua voz em “Pista de Dança” e a parceria “Fábrica do Poema” foi importante na carreira da compositora gaúcha .

Outro grande encontro de Waly foi com Luiz Melodia por quem o poeta tinha grande admiração. Foi Waly que mostrou “Pérola Negra” pra Gal Costa. Anos depois, Melodia retribui realizando o sonho de Waly Salomão de ter sua parceria com Macalé, “Mal Secreto”, gravado por ele. Mérito de Karla Sabah, cantora e documentarista. Olha só esse trecho do trabalho dela, que jóia rara!

E nesse vídeo, tirado de uma homenagem à Torquato Neto vamos ver Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso fazendo a lindíssima canção “Nenhuma Dor”. Torquato Neto merece ter a obra visitada, são tantas coisas lindas. “Três da Madrugada”, por exemplo é de morrer…

Mais um pedacinho para ouvir trechos de seus poemas com Paulo José e ainda mais do violão de Macalé. Muito bom também os cabelos negros de Wagner Tiso. Fantástico!

Por essas e outras eu toco essa semana no Vozes do Brasil duas canções feitas em parceria com esses mestres da poesia em forma de letra de música. Com Adriana Calcanhoto “Teu Nome Mais Secreto”, faixa do Maré; e com Gal Costa “A Coisa Mais Linda Que Existe”, uma gravação do final dos anos 60. E ainda tem Vinicius de Moraes com Clara Nunes. Poesia pra tocar no rádio.