Luiz Melodia tocando violão é coisa cada dia mais rara de se ver e é sempre bom. Essa canção faz parte do lp Maravilhas Contemporâneas lançado em 1976. Essa versão é do dvd Luiz Melodia Convida.
Luiz Melodia tocando violão é coisa cada dia mais rara de se ver e é sempre bom. Essa canção faz parte do lp Maravilhas Contemporâneas lançado em 1976. Essa versão é do dvd Luiz Melodia Convida.
Por influência de minha mãe, meus irmãos e eu sempre lemos muito. Desde pequenos. E quando adolescente, virginiana, descartava os livros que não me diziam nada, que não me serviam. Curioso. Até hoje tenho uma relação estreita, íntima, essencial com esses objetos que levo pra cama, pra praia, pro avião, não vivo sem e é neles que busco o entendimento das misérias do cotidiano ou dos intrincados problemas existenciais.
Por tudo isso quando ouvi Cássia Eller cantando “Sensações” de Luiz Melodia me identifiquei de imediato.
“Esses livros que eu leio causam sensações…” e são como oráculos que consulto regularmente. Romances, poemas, cartas, filosofia, biografias, fábulas…
Lembro dos tempos de faculdade quando li “Les Liansons Dangereuses”- que virou filme pelo menos duas vezes como “Ligações Perigosas” – fiquei na maior onda de escrever cartas a torto e a direito (o que, confesso, faço até hoje); quando li “Crime e Castigo”, aos 18 anos, fiquei quase psicótica; quando li “O Morro dos Ventos Uivantes” fiquei paralisada como o personagem principal na frente daquela porteira, não saia dessa página…
E assim é. Não consigo viver o que seja sem buscar nos livros um precioso auxílio. Seja pra me entender melhor, seja pra melhor dizer o que eu sinto ou penso ilustrando a minha parca retórica com as geniais sacadas alheias. E, ora, porque não? Não é pra isso que servem os livros?
Disso sabe bem Caetano Veloso que fez um cd chamado Livro e que vive se referindo à poetas, escritores e afins. Calcanhotto também faz isso muito bem. De Melodia já falei, mas vale lembrar o Retrato de Um Artista Quando Coisa, um Manoel de Barros lindo que virou canção arranjada para voz e cordas… um golpe direto no peito.
Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão
O Século Trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Vem daí as tais misérias do cotidiano, uma expressão que adoro, vertida do russo para o português por Augusto de Campos. Maiakovski foi um poeta moderno, político e rasgado de romance quando se dedicava ao amor. Para Lilia Brick ele fez um dos poemas mais lindos que já ouvi na vida e que reproduzo aqui:
Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA
Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
Lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
O meu amor – duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que ti encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
Num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
Ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?
Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.
Maiakóvski
26 de maio de 1916. Petrogrado.
Tradução de Augusto de Campos
Publicado em literatura, musica brasileira, poesia
Com a tag Augusto de Campos, Caetano Velosos, Cássia Eller, Gal Costa, Luiz Melodia, Maiakovski
Essa semana no Vozes do Brasil a seleção está cheia de duetos. Isso começou por conta de Rita Lee e seu Bossa and Roll, disco antigo e delicioso, que ela fez só com violões há uns 20 anos. Lá na última faixa ela chama Gal Costa pra cantar “Mania de Você” e as duas se divertem muito com a experiência. Brincam uma com o repertório da outra e se não fazem a melhor versão dessa deliciosa música da safra paixão Rita e Roberto, fazem uma das mais interessantes pra quem gosta desse tipo de troca que só se dá ao vivo. Eu adorei e compartilho.
Gal Costa e Rita Lee – Mania de Você
Outro encontro incrível entre duas vozes arrebatadoras: Cássia Eller e Luiz Melodia. No projeto Casa do Samba eles cantam juntos “Juventude Transviada”. Cássia dá um show de tranquilidade com seu vozeirão. Solta a voz e destrói nessa interpretação. Luiz Melodia é pra mim o melhor cantor de sua geração. Compositor genial, herdeiro da tradição do Estácio de Sá e expoente da cultura pop tropicalista marginal. Duo de gigantes!
Luiz Melodia e Cássia Eller – Juventude Transviada
Paulinho Moska é um pensador. Faz música como matemática pura. E Lenine é um maravilhoso irrequieto que cultiva orquídeas. Dois grandes compositores e dois violões cheios de personalidade. Juntos eles fazem “Do It”, de Lenine, numa gravação do genial programa Zoombido.
Moska e Lenine – Do It
A seleção completa está na página Play List do Vozes e eu chamo a atenção aqui pra versão de voz e violão de “Cangote” com a Céu que foi gentilmente cedida por Alexandre Matias do site O Esquema. Eu ouvi e adorei, pedi pra Céu, que pediu pro Alexandre e com a ajuda da Bebel Prates colocamos no ar! Lindo!
Na entrevista da seman temos Claudia Dorei e seu Trip Hop Tropical. Aqui mesmo na sala de casa conversamos sobre seu primeiro cd, Respire, e o bate papo está na integra nesta edição do Vozes do Brasil.
Confira as emissoras na página Vozes do Brasil no Rádio. Bom programa!
Publicado em entrevista, rádio, show
Com a tag Cássia Eller, Céu, Cláudia Dorei, Lenine, Luiz Melodia, Moska, Rita Lee Gal Costa, vozes do brasil
Existe uma discussão muito antiga sobre as diferenças entre letra de música e poesia. Já conversei muito sobre o tema com Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, enfim… com quase todo mundo que passa aqui pelo Vozes. Mas tem alguns poetas que fizeram música como poucos. Alice Ruiz é uma delas e tem até um livro publicado com um título que resume nossas discussões pela raiz: “Poesia Pra Tocar no Rádio”. Não é perfeito?
Mas essa semana vou destacar dois outros poetas, marginais e heróis: Torquato Neto e Waly Salomão.
Torquato foi da primeira turma de Tropicalistas, escreveu algumas jóias raras que hoje são clássicos da nossa música popular. Vamos pegar, por exemplo, “Geléia Geral”, uma parceria com Gilberto Gil que virou ícone . Segundo o compositor o poema já veio pronto pra virar música, pra ser “eletrificado” e Gil não mudou nenhuma vírgula. Na biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz, há uma citação de Paulo Leminski que fala dessa composição como uma síntese da obra do poeta: “a grande arte de Torquato, poeta das elipses desconcertants, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade.”
Gil e Torquato são parceiros em mais de 15 canções. Com Caetano ele fez “Mamãe Coragem”, outro ícone dessa época e desse movimento. Foi gravada por Nara Leão e por Gal Costa.
Waly Salomão conheceu Torquato no casamento de Caetano Veloso e Dedé. Waly e Jorge Salomão estavam chegando em Salvador, mas foi no Rio de Janeiro que a amizade se estabeleceu e eles fizeram juntos a revista Navilouca , que teve uma única edição mas fez barulho.
Waly fez simplesmente “Vapor Barato”, uma de suas várias parcerias com Jards Macalé, um símbolo da resistência pop, romântica, tropicalista, dos que ficaram aqui enquanto Caetano e Gil estavam no frio exílio londrino.
Foi Waly que dirigiu o antológico show Gal Fa-Tal com Lanny Gordin e sua guitarra acompanhando a cantora mais importante daquele momento. Waly atravessou movimentos, fez músicas com Caetano Veloso pro repertório de Maria Bethânia (“Mel” e “Talismã”), com Antonio Cícero – outro poeta ícone da música pop brasileira, fez um disco inteiro pra João Bosco (Zona de Fonteira),teve parceria com Lulu Santos gravado pelos Paralamas com grande sucesso (“Assaltaram a Gramática”), fez Cássia Eller finalmente encontrar Cazuza no show e cd Veneno Antimonotonia e teve muitos de seus poemas musicados por Adriana Calcanhotto anos depois da explosão contracultural de que foi protagonista. Calcanhotto acabou por ser uma de suas maiores intérpretes na música contemporânea. Waly colocou sua voz em “Pista de Dança” e a parceria “Fábrica do Poema” foi importante na carreira da compositora gaúcha .
Outro grande encontro de Waly foi com Luiz Melodia por quem o poeta tinha grande admiração. Foi Waly que mostrou “Pérola Negra” pra Gal Costa. Anos depois, Melodia retribui realizando o sonho de Waly Salomão de ter sua parceria com Macalé, “Mal Secreto”, gravado por ele. Mérito de Karla Sabah, cantora e documentarista. Olha só esse trecho do trabalho dela, que jóia rara!
E nesse vídeo, tirado de uma homenagem à Torquato Neto vamos ver Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso fazendo a lindíssima canção “Nenhuma Dor”. Torquato Neto merece ter a obra visitada, são tantas coisas lindas. “Três da Madrugada”, por exemplo é de morrer…
Mais um pedacinho para ouvir trechos de seus poemas com Paulo José e ainda mais do violão de Macalé. Muito bom também os cabelos negros de Wagner Tiso. Fantástico!
Por essas e outras eu toco essa semana no Vozes do Brasil duas canções feitas em parceria com esses mestres da poesia em forma de letra de música. Com Adriana Calcanhoto “Teu Nome Mais Secreto”, faixa do Maré; e com Gal Costa “A Coisa Mais Linda Que Existe”, uma gravação do final dos anos 60. E ainda tem Vinicius de Moraes com Clara Nunes. Poesia pra tocar no rádio.
Publicado em canção, musica brasileira, poesia, show
Com a tag Alice Ruiz, Gal Costa, Gilberto Gil, Jards Macalé, Luiz Melodia, Paulo Leminski, Torquato Neto, Tropicalismo, Waly Salomão

Céu
Nesse vídeo que achei no YouTube os gringos se rendem ao charme da moça…
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Com a tag Anelis Assumpçao, Arnaldo Antunes, Beto Villares, Céu, Jorge Benjor, Lenine, Luiz Gonzaga, Luiz Melodia, Marisa Monte, Vagarosa