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Borboletas, John Keats e Manoel de Barros

Voltei do cinema absolutamente encantada pela poesia. Não só a poesia romântica de John Keats, tema do filme, mas por toda ela. Pela experiência que um poema oferece. “Bright Star” é o nome de um poema de Keats e também dá nome ao filme – lamentávelmente traduzido para “O Brilho de Uma Paixão”. É uma pena. Se lembrarmos que os tradutores de Keats no Brasil são nada menos que Augusto de Campos e Manuel Bandeira, dá até uma tristeza.
Ouvi críticas severas ao filme de Jane Campion num almoço entre amigos mas também li um lindo artigo na Folha de São Paulo que me levou ao cinema. João Pereira Coutinho lembrou da proximidade de Keats com a poesia grega clássica que muito me atrai desde os tempos de faculdade. Tenho perdidos por aqui os livros traduzidos por José Paulo Paes, riquísimas antologias do período clássico grego e latino. De lá eu tiro Píndaro e seu poema sobre a efemeridade da vida e da beleza como um exemplo: “..o homem é o sonho de uma sombra, mas quando os deuses lançam sobre ele a sua luz, claro esplendor o envolve, e doce então é a vida.” A frase mais conhecida de Keats é “A think of beauty is a joy, forever”, onde quer que a vida breve nos leve – traduz Augusto de Campos. E Bandeira ainda faz graça completando: “Mas ele próprio sentiu, quanto essa alegria dói.
O filme de Jane Campion trata disso. Da beleza, da efemeridade, do amor romântico, do tempo que não existe mais. O amor é o cotidiano daquela familia que vive nos campos da Inglaterra. A jovem Fanny, musa de Keats, cria suas próprias roupas, ama dançar e acaba fazendo um viveiro de borboletas em seu quarto enquanto o poeta viaja até o mar. Keats cita as borboletas e o milagre da transformação da lagarta numa de suas cartas. É o suficiente para que a casa vire uma extensão do jardim.
Os poemas de Keats são fortemente ritmados e causam vertigem numa leitura apropriada. Ele fala dessa sensação da leitura de um poema para a sua apaixonada aluna e é um dos momentos mais bonitos do filme. Outro é quando ele fala da memória do toque, às vésperas da viagem que terminaria com sua morte.
O filme é lindo, colorido, doce, amoroso. Talvez eu tenha gostado só porque sou romântica, ou porque gosto de poesia no cinema, na literatura, na música e nas coisas banais desprovidas de poesia. Por isso, lembro aqui Manoel de Barros e seu “Retrato do Artista Quando Coisa” que foi lindamente gravado por Luiz Melodia num arranjo só de voz e cordas. Ficou divino. São poetas próximos. “Borboletas já trocam as árvores por mim, Insetos me desempenham…” Exceto pela forma, acredito que Keats gostaria disso.

Bright Star, o trailer do filme – pra dar mais vontade de assistir…

Prato de Flores, com Nação Zumbi, um exemplo mangue beat de poesia Manoel de Barros

Calcanhotto e Wally, uma dupla que firmou a canção como principal suporte poético da nossa época, como já dizia Leminski lá nos anos 70.

E, melhor que tudo, a tradução de Augusto de Campos para o poema clássico de Keats.

Endymion ( trecho) – John Keats – trad. Augusto de Campos

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem dos céus e alenta a nossa vida.

ERIKA MACHADO MIXA NOVO CD NO FRIO DE SÃO PAULO

A mineira Erika Machado está em São Paulo mixando seu novo trabalho. Eu só ouvi uma faixa até agora (3×4) mas já gostei. Seu primeiro cd me deixou feliz! Letras bem humoradas, longe do comum, uma sonoridade nova e fresca com a retaguarda do genial John Ulhoa com quem ela repete a parceria. Copio aqui o release que escrevi pro cd “No Cimento e tô esperando ansiosa pra ouvir o novo disco. Depois eu conto tudo.

CAPA DO PRIMEIRO CD DE ERIKA MACHADO - NO CIMENTO

CAPA DO PRIMEIRO CD DE ERIKA MACHADO - NO CIMENTO

O ALMANAQUE ILUSTRADO DE ÉRIKA MACHADO

“Tudo que explique o alicate cremoso e o lodo das estrelas serve demais da conta” – isso é matéria de poesia pra Manoel de Barros e pra Érika Machado. Ele, poeta, ela compositora. Ele no Pantanal, ela numa Belo Horizonte cosmopolita, jovem e divertida mas ainda assim prenhe das pequenas coisas e das coisas grandes que cabem juntas no refrão: “girafa, amor, avião”. Na lírica de Érika Machado tem poesia pra tocar no rádio.
“As Coisas” foi a primeira música que ouvi por indicação de Fernanda Takai do Pato Fu e foi daí que tirei pra abrir essa conversa a figura simples e genial de caber tanta coisa grande num refrão. Imaginar a cena no ar, me deixou feliz de cara.
Depois, Érika me mandou um cd e ele foi comigo pra praia. Passou por São Paulo, atravessou as montanhas da Mantiqueira e da Serra do Mar e não fez feio fora de casa. Érika é uma moça de BH. Fez o “primeiro disquinho” pra vender em camelô em 2003. É artista plástica. Sua música é visual, é leve e tem alguma coisa de crônica, de retrato de geração. Uma juventude que leva a vida com compromisso e responsa, mas com um desapego que me agrada e me ensina porque “eu não sabe de nada” também. É existencialista nessa leveza em letra e música como no clima de “Perna” que tem programações eletrônicas, cavaquinho e escaleta pra procurar seu lugar no mundo.

Érika Machado tem uma qualidade na voz, que eu ainda não sei precisar qual é, mas que me faz acreditar em tudo o que ela canta. Tem uma meninice, um descompromisso aparente que faz a gente imaginar a cara desse personagem que vive de secador, maçã e lente! As figuras se formam como num cartoon pela cabeça. Essa parceria com Juliana Mafra já é sucesso em BH e Marina Machado foi a primeira a gravar.

Como a gente sabe, a simplicidade é chique. Érika é uma das favoritas de Ronaldo Fraga, o estilista mineiro que é louco por música brasileira. Fraga diz que sua voz é entorpecente e ela fez parte de trilha sonora da coleção de inverno 2006.

A produção de John Ulhoa é delicada como me parece ser a poética de Érika Machado. Colorida e desenhada, mas não dispensa guitarras e sujeira quando a música pede – na divertida “Robertinha”, por exemplo. John toca teclados, percussão, banjo, baixo, guitarra, efeitos e é parceiro em “Alguém da minha família”. Érika toca violão e guitarra. Daniel Saavedra programações, teclados, guitarra e cavaquinho. Cecília Silveira é parceira em “No Cimento”, “As Coisas”, assina “Tédio” e faz vocais.
Renato Villaça toca escaleta em “Perna”.

Érika Machado fez o cd “No Cimento” entre julho e outubro de 2005. Ela diz que faz tudo muito devagar, que demora pra fazer uma música. Por mim, tudo bem. Que ela continue nessa tranqüilidade de trazer pra música “as coisas que não pretendem”. Considero preciosos os discos autorais e os poetas únicos. Diz Manoel de Barros que “muita coisa se poderia fazer em favor da poesia (…) perder a inteligência das coisas para vê-las (…) nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos, ciscos de olho, moscas de pensão…”
Quanto se poderia fazer pela música? Escrever seu nome no cimento?
Vá já ouvir Érika Machado e ganhe seu dia de pássaro.

Patricia Palumbo

APERITIVO: ERIKA E O CLIP DE “SECADOR, MAÇA E LENTE”