Já é bem conhecida a história da época dos Festivais quando houve aquela “passeata contra as guitarras”. Uma estratégia para divulgar um programa de tv, o Frente Única, que tinha Geraldo Vandré entre os apresentadores e principais defensores da MPB. Gilberto Gil participou, mas estava do outro lado. Estava curioso com os novos sons, querendo universalizar a nossa música pop, encantado com os Beatles e as novidades que vinham de fora. Foi logo depois que ele chamou os Mutantes com suas guitarras e atitude para defender “Domingo no Parque” por indicação de Rogério Duprat.
É conhecido também o talento de Gil como músico instrumentista. Sempre que aparece com seu violão é sensível a diferença, a personalidade, a delicadeza que ele impõe à canção. Quando ele se acompanha, sozinho, nos proporciona momentos especiais e por isso é tão bem vindo esse novo trabalho acústico. Liminha, que foi produtor do BandaDois, resume o trabalho como uma volta ao começo. Quem disse que é fácil ser simples?
A linha e o linho
Agora, pra lembrar daqueles anos loucos, vamos ver Gilberto Gil encerrando um programa de tv com Caetano Veloso aparecendo no final só de farra. Eles tinham acabado de voltar do exílio. Reparem nas imagens da coxia.
Tenho me dedicado ao ócio criativo, à preguiça sem culpa e aproveito pra colocar algumas pendências culturais em dia. Como não consigo me desprender da música nem nas férias finalmente tive tempo e assisti “Loki”, o excelente documentário sobre Arnaldo Batista feito por Paulo Henrique Fontenele. Fiquei comovida. Achei bonito, bem feito, uma homenagem mais do que merecida pra um dos formadores da nossa música pop. O depoimento de Tom Zé é maravilhoso. As imagens de arquivo dos tempos áureos dos Mutantes são deliciosas. A entrevista na volta de uma viagem pra Londres é fantástica. Os meninos estão lindos, psicodélicos até a alma e falando como as crianças talentosas que eram, entusiasmados, inocentes. A edição é primorosa. Enquanto Arnaldo Batista conta suas histórias e faz reflexões importantes, ele está pintando um quadro e as imagens se alternam entre as que ele cria e as de arquivo. Lindo, tocante e muitas vezes esclarecedor. Outras vezes só nos deixa um pouquinho mais curiosos e confusos sobre a mítica banda, a separação, a saída de Rita Lee. Mas, a verdade, como diz Sérgio Dias, é que cada um tem a sua verdade, tem a sua versão, tem a sua história. Dinho e Liminha também contam as suas e é interessante ver como ficou tudo meio enevoado pela juventude e pela experiência lisérgica.
Imagine ter 20 anos naqueles anos loucos. Estar no topo do mundo. Arrastar multidões. Cantar pro Brasil inteiro pela televisão. Se vestir como quiser. Fazer música pop de vanguarda ao lado dos maiores artistas do país. É muita coisa! Dá pra pirar!
Esse é o trailer do filme:
Rita Lee liberou o uso da sua imagem mas não participou do documentário. Faz uma falta brutal, é claro. Aqui nesse vídeo da década de 80 ela fala dos Mutantes e diz que o casamento com Arnaldo foi uma farsa pra brincar com a Hebe e que na verdade eles eram só bons amigos de infância.
E esse vídeo foi tirado de um programa da Tv Cultura que contava a história do rock no Brasil. Além dos Mutantes ali presentes estavam os Novos Baianos, Secos e Molhados, Tim Maia, Jorge Ben, todos em pauta como precursores do rock nacional. Histórico!
E nesse mesmo espírito de preguiça, zapeando a tv depois de assistir Loki, tive a supresa de ver passar no Canal Brasil o Vozes Do (Co) Mentado! Foi delicioso rever e assim, de surpresa, domingo de chuva, na tv, esse filme feito nos bastidores do Sesc Vila Mariana em 2002 por Helena Maura e Thiago Taboada na ocasião do lançamento do meu primeiro livro. Preciso abrir uma página aqui no blog só pra ele…
Depois das férias.
Mais charmosa que a garota de ipanema, a moça que balança toda pra andar de Tito Madi, pra mim é a melhor tradução da garota brasileira. Essa música se chama “Balanço Zona Sul” e tem gravações incríveis por Wilson Simonal, Sylvia Telles e Elza Soares feitas na época de seu lançamento, 1966. Agora Simoninha gravou com o BossaCucaNova numa versão ao vivo e cheia de balanço. Muito boa mesmo. Ele já havia incluído essa pérola em seu repertório mas ganhou muito aqui com a versão de Marcelinho Dalua, Marcio Menescal e Alexandre Moreira. O BossaCucaNova faz esse trabalho de usar as bases originais e acrescentar batidas, baixo, guitarra, novas vozes, aos clássicos do samba e da bossa. No primeiro cd tiveram a participaçao de Roberto Menescal e a cantora Cris Delano é a voz oficial da banda, mas outras várias se juntam à eles pra fazer essa festa dançante que arrasa em palcos do mundo todo. Eu mesma os vi certa vez na França, em Cannes, e pude presenciar o sucesso absurdo com os gringos – além de dançar muito em todas as vezes que vou aos shows. Claro!
Aqui tem mais balanço com uma versão deliciosa pra Ela é Minha Menina de Jorge Ben. Originalmente gravada pelos Mutantes agora é música de pista. Adoro!!
E o Simoninha cantando “Balanço Zona Sul” no maior estilo… Muito bom!!
Acompanhe cantando e me diga se essa moça que balança toda pra andar não tem mais charme que a garota de ipanema.
Balanço Zona Sul (Tito Madi)
Balança toda pra andar
Balança até pra falar
Balança tanto que já balançou
Meu coração
Balança mesmo que é bom
Do leme até o leblon
E vai juntando um punhado de gente
Que sofre com seu andar
Mas ande bem devagar
Que é pra não se cansar
Vai caminhando
Balam balançando sem parar
Balance os cabelos seus
Balance e vai mas não vai
E se cair vai caindo caindo
Nos braços meus
E eu tenho que lembrar aqui que Tito Madi fez uma linda história na música brasileira. É da geraçao pré-bossa nova como Johny Alf e Dick Farney. É autor da famosa “Chove Lá Fora”, seu primeiro grande sucesso (1957) gravada por Dolores Duran, The Platers e João Gilberto. Cantou com Maysa e gravou com ela o espetacular Lp “Dois Na Fossa”, disco que todo mundo tem que ouvir. Um clássico. Pena que seja dificil de encontrar.