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Ouvido Absoluto: O Brega é Pop. E eu adoro

Saiu minha coluna no Estadão do último sábado. Muito feliz e honrada faço parte do time do Ouvido Absoluto junto com Roberto Muggiati(jazz), Gilberto Mendes(erudito), Nei Lopes(samba) e Claudia Assef(eletrônica). Escrevi esse último texto depois de voltar de Belém do Pará e me lembrando de uma linda viagem que fiz pra São Luiz do Maranhão convidada por Rita Ribeiro. Reproduzo aqui.

O BREGA É POP

Estive em Belém e voltei totalmente encantada pela cidade, seus sabores, seu calor e mais que tudo com a música do Pará. Ouvi a guitarrada dos Lobato, o tecnobrega de Gaby Amarantos, visitei uma aparelhagem, dancei o carimbó chamegado de Dona Onete e curti muito o pop kitsch de Felipe Cordeiro.
Felipe é um jovem músico, produtor, compositor e um dos principais nomes da cena contemporânea em Belém. Seu show é colorido, dançante e divertido. Ele se veste como os cantores do gênero, as letras falam de um amor descarado e as guitarras fazem aquele solinho safado de bom que a gente já pode identificar em varios artistas pelo país afora. O brega está contagiando o país. O acento aparece no trabalho de Karina Buhr, de Andreia Dias, de Bárbara Eugênia, na guitarra de Fernando Catatau, nas baladas doloridas do Pélico e até nas indefectíveis canções de amor de Marisa Monte.
Comecei a entender o brega em sua essência quando estive no Maranhão com as irmãs Elza e Rita Ribeiro pra conhecer a Festa do Boi. Foi uma semana linda, colorida, inesquecível, quando pude ouvir os diversos sotaques dessa festa: pandeirão, orquestra, matraca… É um mundo!
E voltando do tradicional Boi do Maracanã, a pé na madrugada, passamos por um terreiro pequenininho, todo enfeitado, em frente à uma pequena capela. As meninas entraram pra uma bençãozinha rápida e sairam dançando juntas quando começou a tocar uma música no alto falante. Cena de filme do Lírio Ferreira em co-direção com Pedro Almodóvar! Tudo colorido e com essa mistura maravilhosa que é típica das festas populares no Brasil, a religião e o prazer. Não sei qual era a música, mas elas conheciam muito bem e se divertiram a valer.
Esse é o brega. Música romântica, fácil, cheia de clichês, e boa de dançar junto.

A turma mais inteligente consome o brega que Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto resolvem gravar e deixar chique. Mas esperto mesmo é quem vai na fonte. Tem que ouvir Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e a música do Pará, o nosso pop-rock-brega-contemporâneo. E como já disse Rita Ribeiro, “tropicalistas somos todos nós”. O romance está na veia do brasileiro e essa visita ao cafona faz parte da nossa tradição. Voltando ao Caetano tropicalista, muito antes de gravar Peninha ele colocou o drama Coração Materno, de Vicente Celestino, na boca do povo mais descolado.

Marisa Orth que é atriz e cantora das boas, adora o brega. Fez uma apologia ao gênero com o show Romance Vol.II que tem exatamente esse acento dramático. Ela canta “Dores do Mundo” do repertório clássico do soul man Hyldon, “Sofre” de Tim Maia (ele mesmo um brega black funk soul) e a genial “Insanidade Temporária” de Flávio Souza e André Abujamra que é um brega legítimo – uma história de amor e morte! O clipe, dirigido por Ivy Abujamra é sensacional!

Brega é também como se chamam as casas de prostituição no norte e nordeste onde esse tipo de música de dançar coladinho sempre fez sucesso. Dos bregas foi pras rádios e virou gênero. Na definição da Enciclopédia da Música Brasileira se diz que o termo é usado formalmente desde 1982 e copio aqui o verbete: Brega – coisa barata, descuidada ou mal feita; sinônimo de cafona; música mais banal, óbvia, direta, sentimental e rotineira possível…
E isso não é bom demais? Como já disse o poeta, não são ridículas todas as cartas de amor? O brega é pop e eu adoro.

Cantores do Brasil

Nesse domingo tranquilo me dei o prazer de ouvir velhas canções no Ipod mais antigo da casa. Me deparei com João Gilberto e o excelente Amoroso, disco que me destruiu de tristeza imcompreensivel aos 18 anos. Hoje, às vésperas de fazer 46, entendo tudo. Impossível não chorar ouvindo “Retrato em Branco e Preto“, de Chico Buarque e Tom Jobim, mesmo sem ter jamais vivenciado algo parecido. E João Giberto cantando é comovente, muito comovente. “Pra Machucar Meu Coração” de Ary Barroso que ele gravou no clássico Getz/Gilberto de 1964 é outra dessas pérolas, exemplos do melhor do nosso cancioneiro, com Tom Jobim ao piano.
Como é bom ouvir um bom cantor. E como são poucos os espaços em que se falam desses nossos cantores do Brasil.
Escrevi recentemente na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música, um texto sobre isso. Devo dizer que faltou espaço pra falar de todas as vozes masculinas incríveis que temos nesse país. Hoje, me lembrei deles depois de ouvir o Amoroso e peguei Foreign Song de Cetano Veloso, que é uma maravilha… que repertório bem escolhido, que deliciosas interpretações.
Coloco aqui João e Caetano. João canta Caymmi e Caetano, Arthur Hamilton. Standards da canção internacional.
E na sequência copio o texto da coluna do Estadão.

CANTORES DO BRASIL

Muito se fala que o Brasil é um pais de cantoras e é verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, às grandes divas da era do radio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Bethânia, a lista é infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zélia Duncan e a expoente máxima dessa geração – que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferença, Cássia Eller.
Da novissima geração tenho falado muito e graças ao meu trabalho no radio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um cd pela gravadora Jóia Moderna, o Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Rennó, Nina Becker e Bárbara Eugênia. O trabalho revela a diversidade do momento atual da música pop brasileira, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade única e inteligente de altissima qualidade.
Agora, e os cantores? Será que não é injusto dizer que esse país não é deles? Francisco Alves – o cantor das multidões; Orlando Silva – o rei da Voz. O charmoso Mário Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contrario dos aqui citados ídolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnológico. E Cyro Monteiro? Que divisão, que suingue! E o grande Jamelão arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o ultimo dos galãs do radio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava tão determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma prótese para parecer mais atraente à juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fenômeno! Quando eu era ainda uma iniciante no radio tive a oportunidade de entrevista-lo e foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi. Levei uma pilha de lps pro estúdio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, assíduo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e também com o microfone. Ciente da magia do veiculo e do poder de sedução da sua voz ele se dirigia diretamente às suas fãs e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!
E entre nossos cantores também há uma enorme diversidade de estilos, é claro. Até no mesmo gênero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simpatica, quase clássica. Luiz Melodia é pra mim um dos maiores, uma voz que não perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excelencia, criador de clássicos, é dessas vozes que eternizam uma canção. Caetano Veloso, em fases em que composiçao não vem tão linda e forte, grava como interprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, só recomendo ouvir em caso de dúvida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.
Mas temos hoje uma diferença interessante com relação ao tempo em que se chamava o Brasil de um país de cantoras ou em que o vozeirão de peito é que fazia fartura. Tenho a impressão que a mudança começou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa geração, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico César, por exemplo. São excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas não é o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da geração seguinte segue pelo mesmo caminho. Léo Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar é um cd de autor. Rômulo Fróes lembra até Paulinho na Viola na sutileza do registro mas é mais no discurso, na coerência da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretensões mas bem gostosinho.
Ainda assim há os que se esmeram no oficio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da França onde fez canto erudito. Filipe Catto é um raríssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na preparação vocal, e é um charme com seu jeito cool de bem comportado carioca. Diogo Poças lembra Mário Reis.
São muitos e só pra confirmar a teoria antropofágica tropicalista que vai até o amálgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacreditável. O país que mistura e transforma como nenhum outro não é só o país das cantoras ou dos cantores, é o país da canção. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.

Essa é pra tocar no rádio? Gil e Jorge no Ouvido Absoluto.

Minha coluna desse sábado no Estadão, caderno C2+ Musica, usa o título da música de Gilberto Gil como motivo de reflexão. A canção foi escrita em 73 e gravada por ele duas vezes em 75: no Refazenda e depois naquele histórico lp Gil e Jorge numa versão de quase 7 minutos que eu adoro tocar no rádio só pra provocar. São raras as gravaçōes desse tamanho que entram nos play lists tradicionais. O disco todo é improvável. Taj Mahal, Nega, Filhos de Gandhi, temas especiais para o suingue do encontro dos violōes de Gil e Benjor, improvisos, levadas incríveis e liberdade total. Esse lp histórico nunca toca no rádio, mas é cult no mundo todo. Aqui, uma dessas deliciosas viagens…

Pra ler a coluna do Ouvido Absoluto na íntegra, clique aqui.