As canções da briga Dalva e Herivelto

As coisas estão esquentando na nossa novela favorita. E pensar que tudo isso se passou há uns bons 40 anos ou mais e a gente aqui, sofrendo as agruras do casamento desfeito tendo a música como pano e fundo e, vou confessar, pra mim como protagonista, personagem principal.
Por isso, dedico esse post às canções que foram feitas, gravadas, escritas especialmente para essa briga conjugal das mais famosas da nossa história.
Como já contei no post anterior Herivelto já anunciava a separação quando compôs “Caminhemos” gravada por Francisco Alves. No mesmo ano fez pra Dalva “Segredo” e já tinhamos aí dois clássicos numa tacada só. Vamos às letras:

CAMINHEMOS

Não, eu não posso lembrar que te amei
Não, eu preciso esquecer que sofri
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois

Vida comprida, estrada alongada
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada…
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontre no mesmo lugar

SEGREDO

Teu mal é comentar o passado
Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois
O peixe é pro fundo das redes, segredo é pra quatro paredes
Não deixe que males pequeninos
Venham transformar os nossos destinos
O peixe é pro fundo das redes
Segredo é pra quatro paredes
Primeiro é preciso julgar
Pra depois condenar
Quando o infortúnio nos bate à porta
O amor nos foge pela janela
A felicidade para nós está morta
E não se pode viver sem ela
Para o nosso mal não há remédio coração


Mas a polêmica mesmo veio depois quando Dalva volta de viagem, separada de Herivelto – que já estava morando com a nova mulher, e grava “Tudo Acabado”, de J. Piedade e Oswaldo Martins. Ela começa aí uma carreira solo de grande sucesso e Herivelto fica sem a estrela do seu Trio de Ouro e amarga também a perda de alguns parceiros. Isso foi no começo de 1950.
A letra:

TUDO ACABADO
Composição: J. Piedade / Osvaldo Martins

Tudo Acabado Entre Nós, Já Não Há Mais Nada
Tudo Acabado Entre Nós Hoje De Madrugada
Você Chorou e Eu Chorei, Você Partiu e Eu Fiquei
Se Você Volta Outra Vez, Eu Não Sei

Nosso Apartamento Agora Vive a Meia Luz
Nosso Apartamento Agora Já Não Me Seduz
Todo Egoismo Veio De Nós Dois
Destruimos Hoje o Que Podia Ser Depois

Aqui nessa gravação Dalva de Oliveira, ela mesma, conta a história da gravação de “Tudo Acabado” . Uma pérola!!

Outro sucesso estrondoso e feito na sequência foi o bolero “Que Será”, de Marino Pinto e Mario Rossi. Essa todos conhecem por conta da tal “luz difusa do abajur lilás” que é por si só uma crônica de época, vamos combinar!

QUE SERÁ
Marino Pinto / Mario Rossi

Que Será
Da Minha Vida Sem o Teu Amor
Da Minha Boca Sem Os Beijos Teus
Da Minha Alma Sem o Teu Calor

Que Será
Da Luz Difusa Do Abajour Lilás
Se Nunca Mais Vier a Iluminar
Outras Noites Iguais

Procurar
Uma Nova Ilusão Não Sei
Outro Lar
Não Quero Ter Além Daquele Que Sonhei

Meu Amor
Ninguém Seria Mais Feliz Que Eu
Se Tu Voltasses a Gostar De Mim
Se Teu Carinho Se Juntasse Ao Meu

Eu Errei
Mas Se Me Ouvires Me Darás Razão
Foi o Ciúme Que Se Debruçou
Sobre o Meu Coração

Essa foi um golpe mortal em Herivelto, já que seu parceiro de longa data, Marino Pinto assinava a canção. E aí o nosso querido e genial compositor entrou numa rota errada. Escreveu uma bravata em parceria com David Nasser e as coisas tomaram um caminho ruim. A música se chamava por ironia “Caminho Certo” e insinuava traições de Dalva de Oliveira com os amigos e parceiros compositores. Chutou o balde! Veja esse trecho: “Senti agora que os amigos que utrora/ Sentavam a minha mesa / Serviam sem eu saber / O Amor por sobremesa…”
Ofendeu todo mundo!! Dalva de Oliveira era reconhecida por sua hospitalidade, cozinhava pros amigos ainda em trajes de palco e depois sentava na sala pra cantar.
Daí é que veio em 1950 a famosa “Errei, sim”, de Ataulfo Alves: Manchei o teu nome /Mas foste tu mesmo /O culpado /Deixavas-me em casa /Me trocando pela orgia /Faltando sempre /Com a tua companhia…

Em resposta Herivelto fez “Teu Exemplo” falando de estrelas na lama. Dalva gravou na sequência “Calúnia”, de Marino Pinto e Paulo Soledade, e Herivelto fez com benedito Lacerda “Consulta Teu Travesseiro” e “Não Tem Mais Jeito”.
Dessa época a mais conhecida até hoje é “Palhaço”, presente de Nelson Cavaquinho e Oswaldo Martins para Dalva e que fazia referência à antiga profissão de Herivelto.
Aqui vai a letra:

Sei Que é Doloroso Um Palhaço
Se Afastar Do Palco Por Alguém
Volta Que a Platéia Te Reclama
Sei Que Choras Palhaço
Por Alguém Que Não Te Ama

Enxuga Os Olhos
E Me Dá Um Abraço
Não Te Esqueças
Que És Um Palhaço
Faça a Platéia Gargalhar
Um Palhaço Não Deve Chorar

Ainda em 1951 Dalva de Oliveira grava “A Grande Verdade”, de Luiz Bittencourt e Marlene dizendo coisas como “quando um dia o remorso chegar e da felicidade existir a saudade no teu coração verás ao teu lado meu vulto meio apagado…”
A que Herivelto responde em parceria com Raul Sampaio em “Perdoar”:Eu estou cada vez mais convencido/ de que aquela mulher é um caso perdido/ vem arrependida implorar perdão/ falta, erra e por fim / ainda confessa, errei sim”.

Assim foi até 1952 quando os ataques foram esmorecendo e Dalva, uma grande estrela nacional, começa a estourar nas paradas com outros sucessoso como “Kalu“, de Humberto Teixeira, e “Ai. Yoyô”, de Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Marques Porto e Cândido Costa.

O resultado da novela é esse repertório incrível e uma história de amor dolorida e complicada. O cantor Pery Ribeiro, filho mais velho do casamento de Dalva e Herivelto, acabou escrevendo um livro de memórias incrível com Ana Duarte, sua esposa e empresária. O livro é uma das minhas fontes pra esse post. Aqui vai a dica: “Minhas Duas Estrelas – uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins”.

12 comentários sobre “As canções da briga Dalva e Herivelto

  1. Patricia, adoramos as matérias sobre Dalva e Herivelto… e mais ainda a sua menção ao nosso livro.

    Que tal agendar um papo com o Pery Ribeiro em seu programa?

    beijossss
    Ana Duarte

    • Oi Ana,
      que honra sua visita!! Muito obrigada!
      Estou relendo o livro de vocês que adoro e gosto mais ainda quando vejo cenas na tv que já tinha imaginado na leitura.
      Olha, estou em férias, mas vamos agendar pra quando eu voltar pra São Paulo com o maior prazer.Te escrevo.
      Beijos pra você para Pery, estou honrada com a visita.
      Patricia

  2. Sofrendo muito com o fim da série? Rs! Pelo visto não (vejo que você está se deliciando com o livro da Ana e do Pery, não é! É isso aí! Dalva e Herivelto são eternos!)

    Abraços,

    Dan

  3. Patrícia, confesso que não acompanhei a mini série, mas esses seus posts são mais que suficientes p/ me encantar pelo tema. Sabe, tem vezes em que é melhor mesmo ficar com a obra e não conhecer tanto da pessoa ….. bjs e ótimo Ano para vc e o Vozes!

  4. Pat,
    ler seu post foi uma coisa deliciosa para uma manhã fria de terça-feira. Vou ali fazer um café. E enquanto a água ferve, procurar por estas canções. Grande abraço

    Rogério Velloso

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  7. Assisti a miniseri quando passou e gostaria muito q voltasse novamente adorei todas as letras das musicas eu pudi conhece melhor da vida deles apesa q por mim eles teriam ficado juntos pra sempre adoro historia real…

  8. Tinha uma música q/ falava: você há de rolar como az pedras q/ rolam na estrada
    ,sem ter nunca um cantinho de seu p/ poder descansar.

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