Johny Alf sempre esteve na minha lista de sucessos. Prefiro as flores em vida.

Tenho falado bastante sobre a lista de sucessos que li na Billboard. Achei de uma tristeza sem fim esse retrato do rádio no Brasil. No ano passado a Rolling Stone me pediu uma lista de canções fundamentais da música brasileira. Vários jornalistas e músicos fizeram suas listas e mandaram pra lá. Na minha, entre as primeiras estavam “Eu e a Brisa”e “Ilusão à Tôa”. As duas do genial Johny Alf, o Genialf pra Tom Jobim.
Eu não sou exatamente uma doutora em música, não sei ler compassos, não sei nada de harmonia nem de arranjo. Mas sei quando ouço uma coisa boa, nesse caso, nas criações de Johny Alf, uma coisa espetacular, diferente, sofisticada e muito muito gostosa de ouvir. “Ilusão à Tôa” pra mim é uma obra prima, uma peça exemplar do que há de melhor na canção brasileira, um encontro harmonioso entre o tema, a letra e a melodia.
Entrevistei Johny Alf uma única vez em toda minha carreira de rádio. Eu ainda estava na Cultura Am e ele foi até lá. Tentei fazer com que ele tocasse piano, tentei arrancar um sorriso, mas ele estava abatido, triste, se sentindo esquecido. E eu ali com todos os discos dele, ansiosa por ouvi-lo. Isso foi nos anos 80, uma época em que era careta gostar de múica brasileira se não fosse rock’n roll ou deboche. Difícil.
De uns tempos pra cá, com a decadência dos velhos esquemas e a retomada do gosto da juventude pela diversidade (mesmo com esse massificante e emburrecedor jogo contra das emissoras de rádio) Johny Alf voltou a ser ouvido. Por pequenas platéias, mas já era alguma coisa. Aqui em casa sempre tocou. Na minha lista sempre esteve e eu cantarolo “Ilusão à Tôa” toda hora, por mais dificil que seja cantar essa melodia toda intrincada de Johny Alf.
Pra redimir os ouvidos do pessoal aqui de casa e pra lembrar dessa maraviha, vamos ouvir Gal Costa e Elis Regina fazendo um dueto de gigantes nessa canção.
E que a morte desse artista inventor, original, único, sirva pra lançar luz sobre sua obra. Viva Johny Alf!

Ilusão à Tôa (Johny Alf)

Eu acho engraçado
Quando um certo alguém
Se aproxima de mim
Trazendo exuberância
Que me extasia

Meus olhos sentem
Minhas mãos transpiram
É um amor que eu guardo há muito
Dentro em mim
E é a voz do coração que canta assim
Assim

Olha, somente um dia
Longe dos teus olhos
Trouxe a saudade do amor tão perto
E o mundo inteiro fez-se tão tristonho

Mas embora agora eu tenha perto
Eu acho graça do meu pensamento
A conduzir o nosso amor discreto
Sim, amor discreto pra uma só pessoa
Pois nem de leve sabes que eu te quero
E me apraz essa ilusão à toa

Vale dizer que na lista da Rolling Stone não entrou “Ilusão à Tôa” e que eu gosto tanto dessa música que ela foi tema de um post mais antigo aqui no blog com uma linda versão de Caetano Veloso. Sou do time que prefere as flores em vida.

6 comentários sobre “Johny Alf sempre esteve na minha lista de sucessos. Prefiro as flores em vida.

  1. Lindo post, Patrícia.

    Curioso ler isso hoje… ouvi pela manhã na CBN um bate papo do Heródoto com o Cony e o Xexéu falando exatamente de Johny Alf e suas lindas canções!

    Obrigada pela contribuição!
    Abraços
    Luiza

  2. Patricia, nao e necessario ler partituras,escrever arranjos, para reconhecer musicas imortais. Nao e preciso nem entender a letra, pois a boa musica e a linguagem dos anjos e nelas reconhecemos nossos sentimentos mais sublimes. Continue fazendo esse trabalho indispensavel de divulgaçao da melhor musica do planeta, para alegrar e enriquecer nossas vidas. Merci, Regina

  3. O genial Johnny Alf

    Com a partida do estelar Johnny Alf, com quem tive o privilégio de conviver e trabalhar no início dos anos 1970, escrevendo e produzindo shows, volta a se divulgar mais uma tolice, mais um falso bordão da famigerada “história oficial da Bossa Nossa”, cheia de ficções, mentiras e deturpações de toda ordem. A reincidente besteira consiste em chamar Johnny Alf de “precursor” da Bossa Nova. Grave e medonho erro. São três osprincipais compositores, os três pilares autorais, composicionais, da Bossa Nova, estética nascida na segunda metade da década de 1950. Três músicos geniais. O pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960), o mais importante compositor do estilo, quem mais alto e longe foi na estruturação composicional, na sistematização melódica e harmônica da Bossa Nova, quem verdadeiramente foi vanguarda, mais ousou, mais transgrediu e promoveu mais invenção. Foi grande amigo de Johnny Alf. Este foi quem, pela primeira vez, me falou de Newton, e com muito entusiasmo, carinho e admiração. O outro é Tom Jobim (1927-1994), primeiro e fundamental parceiro de Newton, que a este sobreviveu 34 anos e com quem formou a principal dupla criadora da Bossa Nova. A parceria New-Tom compôs os hinos, as fundamentais e mais influentes matrizes da Bossa Nova. E o terceiro pilar, anterior a Newton e Tom, e deles mestre, foi Johnny Alf (1929-2010), pianista virtuosíssimo, cantor único e compositor precioso, que cometeu as primeiras ousadias melódicas, harmônicas e rítmicas e, mesmo antes da batida definidora de João Gilberto, é responsável pelas criações basilares do estilo. Negro, pobre e órfão de pai, nascido no Morro da Mangueira, Alfredo José da Silva, filho de uma empregada doméstica, criado em Vila Isabel, incrivelmente parece ser a mais nobre dissonância, culta, sofisticada e afinadíssima, de um tipo de música que surgiu entre os meninos brancos, de classe média alta, da Zona Sul carioca. O sintetizador de todo o processo desenvolvido na década de 1950, o criador do novo ritmo e estilo, da batida rítmica, o definidor da revolucionária harmonia, do novo samba, foi João Gilberto (1931), discípulo também de Johnny Alf. Os jovens Newton, Tom e João Gilberto, assim como Carlos Lyra, Menescal, João Donato, Luiz Eça, Ronaldo Bôscoli, entre outros, formavam a mais assídua platéia do pianista e cantor Johnny Alf nas boates Mandarim (onde revezou com Newton), Clube da Chave, Drink e Plaza. As canções de Johnny Alf, Newton Mendonça e Tom Jobim favoreceram e estimularam a revolucionária criação de João Gilberto. As músicas dos três compositores se adequaram perfeitamente à forma de João Gilberto tocar e cantar. Suas estruturas e características pareciam ter sido feitas especialmente para João, que as acolheu, assumiu-as, vestiu-as com a nova batida e inusitada interpretação, e construiu definitivamente a estética, transformando o baiano de Juazeiro no maior e insuperável intérprete da Bossa Nova. Tom Jobim declarou, por algum tempo, que, se querem dar “um pai” à Bossa Nova, ele é Johnny Alf.

  4. Fui ao último show de Johnny Alf, ao lado de Alaíde Costa e Emílio Santiago, no Sesc Pinheiros. Ele mal pôde se levantar do piano. Nunca tinha visto ele ao vivo e achei emocionante ainda ter tido essa oportunidade. Lá em casa a gente também rola direto o som dele, Patricia. Salve Johnny!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s