Roberto Piva

Morreu o poeta Roberto Piva. Foi no sábado, dia 03, aos 72 anos. Fiquei sentida.
Seus livros fizeram parte da minha formação e da minha ligação com São Paulo quando eu era ainda uma menina e a cidade era atraente e repugnante ao mesmo tempo. Tenho dele uma lembrança nublada e divertida. Ricardo Braga, meu namorado, pai da minha filha e nessa época também poeta, me levou ao acontecimento literário mais importante de 1984: a leitura do Uivo de Allen Ginsberg por Claudio Willer.
Foi no Madame Satã. Willer foi o primeiro tradutor desse ícone da poesia beat norte-americana e a noite reunia a nata da intelectualidade marginal, poetas, boêmios, jornalistas, artistas plásticos, uma loucura!
O poema é imenso, todos sabem, e a leitura tinha um clima ritualístico, de cerimônia para iniciados que pra mim era extremamente sedutor. O jornalista Marcos Faerman, meu ídolo, emocionadíssimo, aos prantos…
A uma certa altura entra alucinado Roberto Piva acompanhado de um lindo jovem loiro. E rodando pelo salão, sempre atrás do rapaz que também não parava quieto, gritava: “encontrei meu Rimbaud!” Sem parar! O menino não estava nem aí pra Willer, Ginsberg, Uivo, poesia beat. Queria balada. Piva queria ele. O rapaz se entendiou e foi embora com amigos. Piva ficou ainda mais doido, gritava e chorava “meu Rimbaud, meu Rimbauzinho…”
Marcão, gaúcho, envolvidíssimo com o poema, ficou puto, levantou o Piva do chão e gritou ainda mais alto: “Não tá vendo, sua bicha, que o michê te largou aqui! Cala tua boca! É o Uivo, porra!!!”
Choramingando por seu Rimbauzinho, Piva sentou num canto e ouviu o poema até o fim.
Foi genial! Intenso! Maluco! Totalmente Roberto Piva. Romântico e desesperado.

Lamento sua morte e ainda mais o desconhecimento de sua obra.
Coloco aqui um dos seus poemas mais importantes pra mim e que revela um pouco do seu autor. Piva andava pelas ruas de São Paulo sempre com um livro, sempre disposto a citar um poema, a criar algo novo.
Vamos ler Roberto Piva.

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS
Roberto Piva

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

Pra não ficar sem música, tiro da seleção de Vozes dessa semana outro poeta beat, Bob Dylan, em versão felicíssima de Péricles Cavalcanti e Caetano Veloso. Gal Costa gravou no Caras e Bocas de 77 e Toni Platão em 2007.

Negro Amor
Composição: Bob Dylan / Versão Péricles Cavalcante e Caetano Veloso

… A estrada é pra você e o jogo é a indecência
junte tudo que você conseguiu por coincidência
e o pintor de rua que anda só
desenha maluquice em seu lençol
sob seus pés o céu também rachou
e não tem mais nada negro amor …

Piva devia gostar de Toni Platão.

8 comentários sobre “Roberto Piva

  1. Patrícia,
    curti muito seu texto. Apreendi muita coisa da poesia de Piva. O Principal é que vida anima a arte. Um pouco antes dele morrer brinquei com um verso dele numa letra que eu estava fazendo. Pensei que ainda podia encontrá-lo, cantar pra ele ouvir. Viva Piva!
    beijos
    Galo

  2. Patricia,
    tudo bem?

    Sou jornalista e acabo de lançar um livro sobre Roberto Piva & sua turma, saiu pela Azougue Editorial. “Os Dentes da Memória – Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e Uma Trajetória Paulista de Poesia” terá lançamento dia 5 de agosto, das 19 às 22 horas, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, aqui em São Paulo.

    Foram 3 anos de pesquisa e entrevistas realizadas junto da também jornalista Camila Hungria com mais de 40 fontes. A edição também conta com fotos, raridades, coletânea de poemas e inéditos.

    Gostaria de convidá-la para o lançamento, acho que você vai gostar do livro.

    Foi muito legal achar seu post!

    Um abraço,
    RENATA D’ELIA

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