Acervo, cultura e patrimônio.

Tive o prazer de fazer o Roda Viva com Inezita Barroso na semana passada. Como eu era a única mulher jornalista na bancada, Heródoto Barbeiro me deu o privilégio da primeira pergunta e, claro, tive que falar dos 30 anos de Viola, Minha Viola com apresentação de Inezita. A mulher é um ícone da cultura popular no Brasil. Jamais entrou um instrumento eletrônico em seu programa e ela conta isso com o orgulho de quem se sente cumprindo uma missão. Três décadas de programa no ar! É de uma resistência inacreditável! Vale a pena dar uma olhada na página do programa dentro do site oficial da Inezita.
E ela adora o que faz. Adora a viola, a moda caipira, a música do interior e só lamenta a falta de cuidado que o país tem com esses temas que lhe são tão caros. Falamos de cantos devocionais, das festas populares que eu também adoro, como as de São Benedito que tem Congada depois da missa, a de São Pedro que tem procissão de barcos, a de São Sebastião que nunca perco e que tem Folia de Reis – já que é em janeiro.
Inezita também contou de uma viagem de carro que fez rodando o Brasil inteiro e anotando num caderno de viagem tudo o que viu e ouviu. Trouxe um repertório maravilhoso que ninguém quis e num ato de rebeldia, queimou tudo! Disse tambem que tem um acervo gigante em sua casa, mas que não dá pra ninguém. Heródoto perguntou sobre o Museu do Folclore, mais tristeza, ele não existe mais.
Acervos são parte do patrimônio cultural de um país. Temos poucos no Brasil. E eu já vi casos de inacreditável desprezo por coleções preciosíssimas que foram parar no lixo. Discos, gravações raras, registros sonoros, livros, fotos, cartas, diários de viagem como esse que Inezita queimou, são tesouros históricos.
Quando entrei na Rádio Cultura Am, com 18 anos, descobri um mundo de informações e sensações na Discoteca. Lps catalogados, numerados, fichados e todos na memória inacreditável do Reginato, um rapaz que sabia te dizer exatamente qual o número do lp de Ademilde Fonseca cantando “O Que Vier Eu Traço”, em que prateleira estava, ao lado desse ou daquele outro disco que você tinha procurado ontem. Um sonho. Pra nossa sorte, essa discoteca ainda está lá, crescendo, com as ficahas atualizadas e em processo de digitalização.
Isso deveria ser obrigatório por lei. Conservação de acervos e abertura para consulta pública.

O Itaú Cultural me convidou pra inaugurar uma série de encontros sobre o acervo da sua Midiateca. Adorei, claro! Acho o tema fascinante e necessário.
Minha missão foi a de conhecer o acervo, escolher alguns cds e pensar num encontro pra falar do que vi. Bom, aqui vamos nós. Dia 28 de julho, essa semana agora, vou ocupar o auditório da Biblioteca com um papo sobre Elis Regina e seus dois discos produzidos por Nelson Motta nos anos 70, sobre Elizeth Cardoso e o samba, Carlinhos Brown e a canção. Quero falar sobre a escolha do repertório e como isso faz diferença na imagem que o artista projeta para o público.
Vamos ouvir um pouco de música, ver uns vídeos, ler passagens de livros, enfim, usar o acervo pra conversar, trocar idéias, vivenciar a cultura do país. Isso é possível porque o Itaú Cultural mantém um acervo, uma biblioteca, uma midiateca, e a Instituto sabe o quanto isso é importante.
Deixo aqui o link da página do Itaú Cultural pra conferir a programação, mas já fica avisado por aqui. A entrada é franca, só precisa chegar um pouquinho antes pra pegar lugar.
Quarta, 28/07, as 19hs. Avenida Paulista, 149.

Presente do Paulo Caruso

3 comentários sobre “Acervo, cultura e patrimônio.

  1. Patrícia, que alegria imensa encontrar seu blogue! Sempre que possível eu lhe assisto, e adoro o seu trabalho – além de ter tido o seu livro, Vozes do Brasil, como O Meu Livro de Cabeceira, por muito tempo – , agora vou escutá-la sempre, na Rádio.
    Sou fã do seu trabalho, a sua junção de profissionalismo e sensibilidade dão a dimensão do ser humano que és e do quanto a música é parte indissociável de ti. E de quanto o seu trabalho é valoroso para nós, tu que és uma guardiã das coisas do Brasil!
    Partilho do mesmo gemido, em conjunto com todos que se entristecem com os lamentáveis descasos quando se trata da nossa memória cultural. Quantas histórias e emoções deixamos de viver, de conhecer e de sentir, em função desse comportamento repulsivo? Quantas ainda se perderão por esses vãos e desvãos da falta de cuidado e compromisso com a nossa identidade, a nossa cultura tão rica e tão descuidada? Mas ainda bem que existem pessoas como tu, um verdadeiro núcleo de resistência, atentas, que estão sempre na defesa dessa nossa brasilidade, seja na música, na poesia, nos folguedos, em todas as manifestações artísticas e culturais que são a identidade, o diferencial de um povo! Concorde Tolstói: “Pinte o seu quintal e serás universal”.

    Um grande e fraterno abraço!

    😉

  2. Olá ! Admiro seu trabalho por sua profundidade e sensibilidade!Estou escrevendo para te parabenizar pela DELiCiOSA entrevista com a cantora Zizi Possi.O Cantos e Contos é um trabalho impecável que merece ser divulgado.
    Pra mim a Zizi Possi é a melhor cantora do mundo…pelo menos é a que mais me emociona!
    Assim como você também AMEi a canção Alfonsina Y El Mar…que pintura….
    Um grande abraço e sucesso sempre pra você!
    Adriana

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s