Esses livros que eu leio…

Por influência de minha mãe, meus irmãos e eu sempre lemos muito. Desde pequenos. E quando adolescente, virginiana, descartava os livros que não me diziam nada, que não me serviam. Curioso. Até hoje tenho uma relação estreita, íntima, essencial com esses objetos que levo pra cama, pra praia, pro avião, não vivo sem e é neles que busco o entendimento das misérias do cotidiano ou dos intrincados problemas existenciais.
Por tudo isso quando ouvi Cássia Eller cantando “Sensações” de Luiz Melodia me identifiquei de imediato.

“Esses livros que eu leio causam sensações…” e são como oráculos que consulto regularmente. Romances, poemas, cartas, filosofia, biografias, fábulas…
Lembro dos tempos de faculdade quando li “Les Liansons Dangereuses”- que virou filme pelo menos duas vezes como “Ligações Perigosas” – fiquei na maior onda de escrever cartas a torto e a direito (o que, confesso, faço até hoje); quando li “Crime e Castigo”, aos 18 anos, fiquei quase psicótica; quando li “O Morro dos Ventos Uivantes” fiquei paralisada como o personagem principal na frente daquela porteira, não saia dessa página…
E assim é. Não consigo viver o que seja sem buscar nos livros um precioso auxílio. Seja pra me entender melhor, seja pra melhor dizer o que eu sinto ou penso ilustrando a minha parca retórica com as geniais sacadas alheias. E, ora, porque não? Não é pra isso que servem os livros?
Disso sabe bem Caetano Veloso que fez um cd chamado Livro e que vive se referindo à poetas, escritores e afins. Calcanhotto também faz isso muito bem. De Melodia já falei, mas vale lembrar o Retrato de Um Artista Quando Coisa, um Manoel de Barros lindo que virou canção arranjada para voz e cordas… um golpe direto no peito.

lilya e maiakovski

Sobre poesia e música já falei muito por aqui e da minha predileção por Maiakovski pra falar de amor de perdição, acho que só entre amigos. Pois bem, Caetano musicou poemas para a peça O Percevejo em 1981. O espetáculo foi dirigido por Luiz Antonio Martinez Correa, com a participação de Dedé Veloso como atriz. Lembro bem do espetáculo no Sesc Pompéia em São Paulo. Uma das canções da trilha, “O amor”, foi sucesso na voz de Gal Costa.

O Amor (sobre poema de Wladimir Maiakovski)

Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão
O Século Trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Vem daí as tais misérias do cotidiano, uma expressão que adoro, vertida do russo para o português por Augusto de Campos. Maiakovski foi um poeta moderno, político e rasgado de romance quando se dedicava ao amor. Para Lilia Brick ele fez um dos poemas mais lindos que já ouvi na vida e que reproduzo aqui:

Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
Lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
O meu amor – duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que ti encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
Num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
Ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Maiakóvski
26 de maio de 1916. Petrogrado.
Tradução de Augusto de Campos

Tarsila

Volto aos livros pra dizer que leio agora um relato inacreditável, corajoso e belo. São as cartas entre Tarsila do Amaral, sim ela mesma a maravilhosa Tarsila do Abaporu, e Anna Maria Martins com o jornalista Luis Martins. Ele foi casado com as duas. Em épocas diferentes. Era muito mais novo que Tarsila, foi seu último companheiro, viveram juntos por 18 anos. Com Anna Maria foram 29. Ainda não terminei, mas estou absolutamente encantada por essa história de amor imenso, compreensão e generosidade. O livro se chama Aí Vai Meu Coração e só isso bastaria pra que o lesse até o final.
Estou só começando, logo mais eu conto o resto. Deixo agora o computador, vou pegar meus óculos pra ler e esquecer as misérias do meu cotidiano com as vidas de Tarsila, Luis e Anna.
Esses livros que eu leio… são a minha salvação.

3 comentários sobre “Esses livros que eu leio…

  1. Patrícia,

    Também sou viciado em livros. Olha que curioso: comecei a ler (à vera) aos 12 anos – pra tentar amenizar a dor de perder uma super avó, que era o meu Rolando Boldrin. Ela era contadora de histórias, inventava – de improviso mesmo – muitas músicas, todas com a bela aura brasileira, folclórica – e tinha um cancioneiro na cabeça. Detalhe: ela era analfabeta, mas era também a mulher mais culta e inteligente da minha família. Louco e lindo isso. Quando ela faleceu, encontrei, muito bem escondida no guarda-roupa, uma caixa de livros – que tinha sido esquecida por um dos meus primos que morou um tempo com a minha super avó. Não hesitei: no auge dos meus 12 anos, fui o menino que roubou livros (rs!). Assim conheci um grande escritor, o Marcos Rey, que soube como ninguém retratar os marginais (já li tudo que ele escreveu). E depois vieram outros, e muitos ainda virão! Todos foram e serão grandes presentes da minha super avó.

    Posso indicar um livro? (se bem que você já deve ter lido): “Travessuras da menina má”, do imprescindível Mario Vargas Llosa (tô indicando pro mundo! rs!). Ah, leia também “Te dou a lua amanhã” – biofantasia de Mário de Andrade, escrita pelo grande Jorge Miguel Marinho.

    Beijos!!!

  2. Ah!essas músicas maravilhosas e esses livros idem. Adoro encontrar essas pérolas da Cássia por aqui, e que satisfação ver o grande TAvinho Fialho (in memoriam) , no baixo…muito bom =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s