Taiguara: livre, senhor de si.

Já contei aqui que a música lá em casa chegava numa kombi. São Sebastião demorou muito tempo pra ter livraria e loja de discos. Eu era bem garota e pra minha cota preferia Bee Gees e qualquer coisa da Motown (bailinho era um coisa séria). Mas esse LP do Taiguara me impressionou pela capa e, lógico, pelas canções com arranjos orquestrais, aquela dramaticidade na voz, um romantismo quase proibido pra minha idade e qualquer coisa de muito pop que me atraía bastante. Viagem saiu em 1970. Os anos seguintes foram marcados por uma época de muito sucesso no rádio e me lembro de ouvir bastante “Universo no teu corpo” e “Hoje“. Taiguara tinha a mesma importância de Erasmo Carlos, Tim Maia e Simonal para os meus pais. E ao lado de Chico Buarque e Gonzaguinha ele foi barbaramente censurado pela ditadura, perseguido, exilado e sumiu das kombis, das lojas de discos, do dial.

Taiguara nasceu no Uruguai, em Montevidéu em 9 de outubro de 45. Veio pro Brasil aos 4 anos e aos 10 começou a compor tocando piano. Foi um excelente música, cantor e compositor, tanto de canções de amor quanto de protesto, nele era tudo muito forte, muito intenso. Seu nome em tupi quer dizer livre, senhor de si. Combinava. Seu disco de estréia em 1965 recebeu elogios de Edu Lobo e Luiz Eça.
No livro organizado por Charles Gavin, 300 Discos Importantes da Música Brasileira, Tárik de Souza destaca o lp de 76: Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara.

E não é por acaso. O Lp foi censuradíssimo, o show proibido e o disco até hoje é objeto de culto de colecionadores. A ficha técnica é impressionante, Taiguara arranjou pra uma orquestra de 68 músicos com a parceria de Hermeto Pascoal e regência de Wagner Tiso.
O time base era o seguinte: Taiguara: Voz/piano/sintetizador/mellotron/flauta; Nivaldo Ornellas: Sax soprano/tenor/flauta; Toninho Horta: Violão; Jacquinho Morelembaun: Cello ; Novelli: Baixo acústico; Paulinho Braga: Bateria/percussão em Três Pontas; Zé Eduardo: Bateria/percussão em A volta do pássaro ameríndio; Ubirajara Silva: Bandoneon em Primeira bateria; Lucia Morelembaun: Harpa; Hermeto Pascoal: Flauta/flauta baixo; Mauro Senise: Flauta; Neco: Cavaquinho

Com o lançamento da gravadora Jóia Moderna temos a oportunidade de ouvir Taiguara outra vez com o primeiro cd da série “A Voz da MUlher na Obra de…” Na seleção de cantoras estão Cida Moreira, Fafá de Belém, Claudette Soares, Evinha, Fernanda Porto, Adyel, Luciana Mello, Célia… gerações e estilos diferentes em arranjos limpos, arejados, que permitem ouvir Taiguara letrista, fazedor de canções. Pra quem não tem essa memória afetiva é um prazer conhecer, pra quem sentia saudades desse repertório, tá tudo aqui.

10 comentários sobre “Taiguara: livre, senhor de si.

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  2. Olá Patrícia, tudo bom?

    Meu nome é Jorge Sabino, sou Publicitário e Estudante de Radialismo – Locução no Senac Lapa Scipião em São Paulo.
    Em meio ao 1º Módulo de nosso curso, escolhemos (meu grupo de estudos) como tema para sua conclusão, estudar o “Programa Vozes do Brasil”, que diga-se de passagem
    é um belíssimo projeto que vem sendo encabeçado com maestria por você.
    Estamos ainda em processo de pesquisa, porém animados por termos escolhido um produto de extrema qualidade e relevância, assim, muito provavelmente será ainda explorado por todo o decorrer de nosso curso. Pois está completamente alinhado com o que hoje chamamos de “Nova Era do Rádio”, onde deixa de estar apenas dentro das ondas sonoras da rádio, para também navegar por outras mídias.
    Baseado nisso, gostaria de lhe fazer um convite:
    – É possível que marquemos uma entrevista contigo para adquirmos mais informações à respeito de sua pessoa assim como do Projeto Vozes do Brasil?

    Aguardo o seu contato.

    Atenciosamente,

    Jorge Sabino
    http://www.jsabino.com.br
    Cel.: 11 72612562

  3. Eu tenho esse disco em LP, mandei passar para CD, mas saiu muito ruim. É um discaço, as ótimas letras de sempre do grande poeta Taiguara, um time de músicos extraordinários. Dizem que deu um trabalho disgramado para gravar, tudo na época era difícil para Taiguara Chalar da Silva.

    Li uma matéria na extinta(!) revista Bizz onde Lenine fala que é um dos discos fundamentais. Tárik de Souza tem razão: é um dos grandes momentos da música brasileira.

  4. Muito bom texto, Patrícia, dá uma excelente idéia de quem foi/é Taiguara. Parabéns! Taiguara Chalar da Silva foi um dos maiores artistas que este país já viu, e “Imyra…” é, para mim, o melhor disco da música brasileira.

  5. Olá Patrícia.
    Sou Claudya cantora e estivemos juntas no lançamento do disco Taiguara na voz da mulher e eu me orgfulho de ter sido a primeira cantora a fazer um cd todo com obras de Taiguara estando também inserida no contexto desse trabalho. Não sei porque não fui citada junto com as cantoras que fizeram o trabalho com uma música belíssima ´que gravei na década de 70.

  6. Talvez tenha sido um lapso de memória de sua parte, mas espero ser inserida porque é de direito, espero não eu quero ser inserida nesse contexto já que gravei a música memória livre de Leila que está no youtube com quase 20.000 acessos e as pessoas amam a canção, e provávelmente eu dei origem a tudo que se faz por Taiguara hoje por ter a primeira a cantar todsa a sua obra, antes Claudete havia feito alguma coisa. Obrigada. Claudya

    • Claudya, respeito e admiro seu trabalho. Não citei todas as cantoras daquela noite ou do cd nesse post, mas se vc se lembra entrevistei vocês todas pro programa de rádio. Vamos postar já aqui a sua gravação no Youtube.
      um beijo,
      Patricia

    • Claudya, acho que você deve mesmo reivindicar melhor tratamento pelo seu trabalho. É normal esquecerem o seu nome.
      Ainda que em contexto diferente, falar em Wilson Simonal pegava mal. Hoje em dia, com ele morto, não é que citar o nome dele passou a ter um certo charme?
      Memória Livre de Leila foi uma grande interpretação sua. Poderia ter sido tocada, na época, mas infelizmente não foi.
      Quanto ao disco em que você gravou só Taiguara, ouvi apenas na internet. Desculpe a sinceridade, mas o disco não ficou à sua altura. Achei os arranjos particularmente preguiçosos, sem inventividade, com poucas exceções. Agora fiquei sabendo que você vai gravar o lado B de Caetano Veloso. Finalmente alguém teve a iniciativa de fazê-la gravar de novo. Espero que o CD faça jus ao seu talento. Pensei em me intrometer dando sugestões, mas parece que você já está gravando. O conceito Lado B é meio vago, mas poderia ficar bonito na sua voz Um Dia, que foi gravado por Maria Odete, e Mamãe, Coragem, de Caetano e Torquato Neto.
      Estou torcendo por um belo CD.
      Mario Garrone

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