Elza Soares e seu canto em forma de oração

Mais uma edição do Ouvido Absoluto no Caderno C2+ Música do Estadão com texto meu. Essa semana resolvi escrever sobre Elza Soares por conta do filme de Isabel Jaguaribe e Ernesto Baldan. Por fim acabei falando sobre o canto em forma de oração e da conexão com o Divino através da música. Segue o texto na íntegra.

Em forma de oração
Por Patricia Palumbo

Aos 8 anos Lenine deixou de ir a missa aos domingos com a mãe. A partir dessa idade o pai dava uma opçao aos meninos, eles podiam se comunicar com o Divino indo à igreja com ela ou ouvindo música em casa ao lado dele – numa casa de cristãos macumbeiros comunistas se ouvia de tudo. Dos eruditos às canções napolitanas, de Glenn Miller aos sucessos de Orlando Silva e Luiz Gonzaga.
Sincretismo religioso e diversidade musical tem a mesma raiz e temos tudo isso de sobra nesse nosso Brasil mulato onde os tambores do candomblé tem a ver com a gênese do samba.
Assisti “Elza”, filme de Isabel Jaguaribe e Ernesto Baldan. Fiquei emocionada com o retrato amoroso que ali se apresentou de Elza Soares e seu canto. Não é um documentário linear, com foco na biografia, mas sim na música. E não é que falte história porque a vida dessa mulher é mesmo dessas que tem tudo pra virar filme, livro, lenda. E disso ela mesma se encarrega contando e recontando coisas como seu encontro com Ary Barroso no programa de calouros da Rádio Nacional onde ela dá sua primeira volta por cima. O apresentador, já um ícone do radio e da música, debocha da menina maltrapilha e pergunta de que planeta ela teria vindo. A menina responde sem pestanejar que é do planeta fome e canta barbaramente. Essa já uma história bem conhecida, a que mais me pega é a do dia em que seu santo de devoção lhe apareceu como um soldado lindo. Seu Jorge conversou com Elza Soares, que tinha 5 anos de idade, ao lado de Oxóssi, que segundo ela conta, não quis muito assunto. Uma delicia. Como diz Caetano Veloso no filme, não importa o que é verdade, os fatos dizem menos à respeito da pessoa do que a maneira que ela escolhe para os contar.
E Elza Soares se reinventa musicalmente a cada disco. Fez samba cheio de balanço com Miltinho e Wilson das Neves, bota acento jazzy, faz scat, puxa samba enredo na avenida. Grande cantora é pouco.
No filme, tudo na opção estética dos diretores me fez lembrar da religiosidade da experiência musical. O vermelho, a teoria das iabás, música como salvaçao, expressão da dor e da alegria. Bethânia e Elza cantam juntas o “Samba da Benção” numa sessão de improviso entre duas artistas plenamente conectadas com o divino. Bethânia até mais explicitamente com seus cantos de devoção e Elza no exemplo de sobrevivência através da música.
E música serve pra que? Pra baixar o santo. Pra transformar. Pra divertir. Elza Soares faz tudo isso quando canta. E ela canta o que quer. Seu jeito de dividir sem perder o ritmo se presta à clássicos como “Se Acaso você Chegasse”, de Lupicinio Rodrigues, e `a desafios eletronicos como “Computadores Fazem Arte” de Fred 04. Com Paulinho da Viola ela incorpora a nobreza do samba cantando “A Flor e o Espinho” de Nelson Cavaquinho e logo depois aparece num baile funk totalmente `a vontade.
Na gravação de “Elza”, de Itamar Assumpçao – uma das inéditas do projeto Caixa Preta, ela deixou o produtor Beto Villares de queixo caído, pra dizer o mínimo. Deu a alma. Cantou completamente entregue. Quem viu, sabe. A entrega é o caminho para a transcendência, é o transe. E isso é uma qualidade que vai além de ter ritmo, técnica vocal, afinação. Isso é nato. É aquele tipo de coisa que não se explica e que vem no sangue de cantoras como Elza, como Cássia Eller, Elis Regina, Dalva de Oliveira, da jovem baiana Marcia Castro quando está no palco. É aquilo que faz do cantor um ser diferente.
E os bons compositores sabem disso, dessa conexão com o Divino através da música. Sabem que vai além da compreensão, do palpável e por isso rendem suas homenagens. Como fez Vinicius no já citado Samba da Benção, como fez Caymmi tantas vezes com seus Pescadores devotos, Caetano Veloso orando para o tempo, Gilberto Gil com sua deusa música. Exemplos não faltam.
A música ajuda a viver. Voltando a Elza Soares, a sua biografia escrita por José Louzeiro se chama Cantando para não Enlouquecer. O livro foi publicado em 1977 e é dificílimo de achar. Uma pena.
Na composição “Minha musica”, Adriana Calcanhotto diz que sua música não quer ser útil, mas é. Todas são. Pra quem canta e pra quem ouve. Quem há de negar a força dos mantras indianos, de um canto gregoriano, de um bom batuque no terreiro? Quem é que não cantou pra Iemanjá junto com Clementina de Jesus ou Clara Nunes? Cantar pra protestar, pra pedir liberdade ou pra se sentir livre.

“Quando eu canto que se cuide
 Quem não for meu irmão 
O meu canto, punhalada, não conhece o perdão”, diz Chico Buarque em ‘Baioque.
Elza Soares e Lenine aprenderam ainda crianças, mas nunca é tarde. No vasto repertório da música popular brasileira não faltam canções em forma de oração. Escolha a sua e cante bem alto.

Pra ouvir uma seleção com Elza Soares cantando muito, clique aqui.

3 comentários sobre “Elza Soares e seu canto em forma de oração

  1. Patricia, delícia ler sua coluna no sábado!
    No site estantevirtual.com.br (tipo um portal com um monte de páginas de sebos) tem vários exemplares da biografia da Elza Soares. Acabei de comprar o meu.
    Até mais!

  2. Gostava de te acompanhar pelo “baleia azul” no 102,7 mhz, bons tempos aquele, em que o litoral ainda vivia de “poesia”. Agora vou acompanhar por aqui.

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