Coluna de sábado no Ouvido Absoluto

A Força das Canções

Um dia desses, meio sem querer, assisti ao encontro de Maria Gadú e Caetano Veloso na TV. Me chamou a atenção a interpretação da dupla para a canção Rapt-me Camaleoa. No verso: “adapte-me ao seu ne me quites pas” Gadú acentua o sotaque francês enquanto Caetano canta solto como se falasse português. Curioso. Me lembrei do preciosismo de Fina Estampa, disco em que ele canta em espanhol com diferentes acentos regionais registrando cada canção com sua particularidade. Na homenagem a Regina Casé faz sentido um certo abrasileirado na expressão francesa talvez pelo contexto histórico da composição, os anos 80, o non sense do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone do qual Regina fazia parte. Tudo me parece mais adequado à uma soltura. Mas longe de mim querer adivinhar o que se passa na cabeça do compositor ou do intérprete. Só me chamou a atenção a diferença.

Luiz Tatit diz que o cancionista, ao propor uma integração entre melodia e letra, deseja que em suas composições ocorra uma aproximação com as leis entoativas que regem o discurso coloquial. Quanto mais próximo da fala maior a identificação. Por isso as “licenciosidades poéticas” de Gilberto Gil e de outros autores populares se tornam tão deliciosamente palatáveis. E pelo mesmo motivo algumas “perversões” da entoação comum caem mal nos nossos ouvidos e outras nos divertem. Carlinhos Brown é um mestre nessas invenções que pervertem as regras da nossa língua usando com liberdade a mistura de português com inglês na mesma canção ou criando expressões. Adoro usar “tô vitimado no profundo” que está na canção Maria de Verdade. Não sei se ele inventou ou se recolheu de ouvir por aí.

É bonito também quando o compositor faz uso das nossas tão intrincadas regras gramaticais e linguísticas. Chico Buarque em 1971 fez Construção toda em dodecassílabos com rimas em paroxítonas. É um clássico, um sucesso na história de sua carreira e é ao mesmo tempo um complicado exercício. Coisa de gênio.

Zé Ramalho, outro erudito, usou muito bem a estrutura do cordel para seus temas épicos. Ele é um cantador sofisticado que traz na bagagem a tradição oral do nordeste. Em Beira Mar ele usa com precisão os versos alexandrinos da cantoria de viola conhecida como galopes à beira mar: 12 sílabas tônicas em cada uma das 10 linhas que compõem uma estrofe. Outro compromisso é terminar com a referência a beira do mar, o que Zé Ramalho faz lindamente.

Voltando a Gilberto Gil, em Metáfora ele diz: “ao poeta cabe fazer com que na lata venha caber o incabível”. Às vezes o incabível na letra. Eu adoro a canção Eu Sei de Marisa Monte mas percebo a dificuldade de fazer a palavra músculo, com sua evidente silaba tônica, caber na melodia. Na música que deu o mote para esse texto, Caetano Veloso usa inflexões pouco comuns: rapte-me, capte-me, adapte-me. Língua complicada essa nossa e ainda assim é aqui no Brasil que nascem as mais lindas canções.

Antonio Maria, letrista, poeta, boêmio, romântico incurável, escreveu numa de suas crônicas para o jornal Última Hora sobre as canções e as pessoas da noite. Em novembro de 1959 faziam sucesso no rádio: Eu Sei Que Vou te Amar, de Tom Jobim e Vinicius de Morais; A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran; e E Daí, samba de Miguel Gustavo gravado por Elizeth Cardoso. Segundo o observador jornalista cada uma das canções fez um efeito diferente no público das boates. A primeira fez o começo de inúmeros romances que se acreditavam sem fim. A segunda ensinava como enfeitar o sono do ser amado. E a terceira virou grito de independência e jogou luz aos casos secretos com os provocativos versos: “Proíbam tudo, tudo, botem avisos, fechem portas, ponham guizos, e o amor perguntará: e daí, e daí?” Copio aqui o desfecho da crônica: “É a força inevitável das canções – das verdadeiras canções – na alma amorosa das noites.”

Pois no fim das contas é isso o que importa. O que dizem as canções para quem as ouve. Lógico que temos uma imensa curiosidade para saber de onde elas vêm, como são feitas, pensadas, estruturadas. Mas se o seu coração, involuntário, bate mais forte, a silaba tônica pode até trocar de lugar. Música é pra enfeitar a vida.


8 comentários sobre “Coluna de sábado no Ouvido Absoluto

  1. Bonito e muito interessante esse texto Patricia. Isso não é uma resposta e sim um agradecimento, por informações que nos dá orgulho de ser brasileiro. Beijos Patricia

  2. “Tô vitimado no profundo” é meio Guimarães Rosa, que eu não sei se Carlinhos leu. Maria Gadu, óbvio , está deslumbrada ali ao lado de Caetano Veloso, este numa fase de uma baita indulgência.

    “Construção” é um portento (‘tijolo com tijolo num desenho lógico’, verso-definição da canção, deve ter dado um pouco de inveja em João Cabral. Chico já havia trabalhado com proparoxítonas em “Rosa dos Ventos”. Um sujeito que, com um pé nas costas, mete ‘paralelepípedo’ no meio de uma letra não vai passar nunca.

    “Beira Mar” é o ponto culminante de Zé Ramalho e um dos momentos mais altos da música brasileira. Na versão do “Acústico” tem um solo de sanfona de Dominguinhos que é de cortar o coração.

  3. Pra mim o poder da canção está diretamente ligada ao poder das palavras e suas divisões. Isso ficou tão forte e marcante na minha forma de escutar música que exijo até hoje como ouvinte o mesmo cuidado. Qualquer coisa que não cuide desse aspecto: letra e canção por mais ricamente melódico que seja não consegue minha atenção devido a grandes feitos de ótimos compositores brasileiros que já não nascem com a mesma facilidade ou talento. O mundo muda, mas clássico é clássico.
    ” a palavra dá prazer”

  4. Olá, Patrícia,
    já que você cita Gilberto Passos Moreira, cabe a canção Domingo no Parque. E cabe a Roda Viva do Chico e a linda Disparada. A bela Marilia Medaglia(sumida!!!) cantando Ponteio com Edu Lobo é de emocionar. Letras fortes, de interpretações e arranjos não menos empolgantes. Belo texto e bela homenagem você fez. Bacana.

  5. Patrícia, que delícia! Música é pra enfeitar a vida mesmo… Adorei o texto!
    Compartilho o “sorriso pontual” do Chico. E adoro o uso da palavra “inexoravelmente” no forró se avexe,não. Acho demais da conta! 🙂
    De novos conhecedores da arte de “brincar” com as palavras que me lembrei lendo o texto:
    – tem um rapper chamado GOG aqui de Brasília que fez um rap só com palavras com a letra “p” chama-se Brasil com “P”. Vale a pena!
    – e Tulipa Ruiz e os erres da sua “efêmera”.
    Abraços fraternos!

  6. O cidadão que assinou o primeiro comentário como Luiz é um dos músicos mais talentosos desse país. Perguntem por Luiz Brasil a Caetano Veloso, Elza Soares, Jussara Silveira, Vander Lee, Ryuichi Sakamoto, Carlos Malta, Roney Jorge … … …

  7. Oi, Patrícia!
    Primeiro agradecer pelo site, as informações, trabalho que nos dedica. Segundo lhe mostrar o trabalho de um menino (mesmo! muito jovem), grande talento aqui, da minha terrinha (interior do RJ): http://umquetenha.org/uqt/?p=12298

    Temos grandes “meninos”, com lindos trabalhos por aqui. E sempre digo a eles que gostaria de vê-los, um dia, figurando em seu site. rs!

    Abraços!
    Auci

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