Cantores do Brasil

Nesse domingo tranquilo me dei o prazer de ouvir velhas canções no Ipod mais antigo da casa. Me deparei com João Gilberto e o excelente Amoroso, disco que me destruiu de tristeza imcompreensivel aos 18 anos. Hoje, às vésperas de fazer 46, entendo tudo. Impossível não chorar ouvindo “Retrato em Branco e Preto“, de Chico Buarque e Tom Jobim, mesmo sem ter jamais vivenciado algo parecido. E João Giberto cantando é comovente, muito comovente. “Pra Machucar Meu Coração” de Ary Barroso que ele gravou no clássico Getz/Gilberto de 1964 é outra dessas pérolas, exemplos do melhor do nosso cancioneiro, com Tom Jobim ao piano.
Como é bom ouvir um bom cantor. E como são poucos os espaços em que se falam desses nossos cantores do Brasil.
Escrevi recentemente na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música, um texto sobre isso. Devo dizer que faltou espaço pra falar de todas as vozes masculinas incríveis que temos nesse país. Hoje, me lembrei deles depois de ouvir o Amoroso e peguei Foreign Song de Cetano Veloso, que é uma maravilha… que repertório bem escolhido, que deliciosas interpretações.
Coloco aqui João e Caetano. João canta Caymmi e Caetano, Arthur Hamilton. Standards da canção internacional.
E na sequência copio o texto da coluna do Estadão.

CANTORES DO BRASIL

Muito se fala que o Brasil é um pais de cantoras e é verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, às grandes divas da era do radio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Bethânia, a lista é infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zélia Duncan e a expoente máxima dessa geração – que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferença, Cássia Eller.
Da novissima geração tenho falado muito e graças ao meu trabalho no radio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um cd pela gravadora Jóia Moderna, o Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Rennó, Nina Becker e Bárbara Eugênia. O trabalho revela a diversidade do momento atual da música pop brasileira, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade única e inteligente de altissima qualidade.
Agora, e os cantores? Será que não é injusto dizer que esse país não é deles? Francisco Alves – o cantor das multidões; Orlando Silva – o rei da Voz. O charmoso Mário Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contrario dos aqui citados ídolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnológico. E Cyro Monteiro? Que divisão, que suingue! E o grande Jamelão arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o ultimo dos galãs do radio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava tão determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma prótese para parecer mais atraente à juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fenômeno! Quando eu era ainda uma iniciante no radio tive a oportunidade de entrevista-lo e foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi. Levei uma pilha de lps pro estúdio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, assíduo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e também com o microfone. Ciente da magia do veiculo e do poder de sedução da sua voz ele se dirigia diretamente às suas fãs e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!
E entre nossos cantores também há uma enorme diversidade de estilos, é claro. Até no mesmo gênero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simpatica, quase clássica. Luiz Melodia é pra mim um dos maiores, uma voz que não perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excelencia, criador de clássicos, é dessas vozes que eternizam uma canção. Caetano Veloso, em fases em que composiçao não vem tão linda e forte, grava como interprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, só recomendo ouvir em caso de dúvida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.
Mas temos hoje uma diferença interessante com relação ao tempo em que se chamava o Brasil de um país de cantoras ou em que o vozeirão de peito é que fazia fartura. Tenho a impressão que a mudança começou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa geração, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico César, por exemplo. São excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas não é o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da geração seguinte segue pelo mesmo caminho. Léo Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar é um cd de autor. Rômulo Fróes lembra até Paulinho na Viola na sutileza do registro mas é mais no discurso, na coerência da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretensões mas bem gostosinho.
Ainda assim há os que se esmeram no oficio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da França onde fez canto erudito. Filipe Catto é um raríssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na preparação vocal, e é um charme com seu jeito cool de bem comportado carioca. Diogo Poças lembra Mário Reis.
São muitos e só pra confirmar a teoria antropofágica tropicalista que vai até o amálgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacreditável. O país que mistura e transforma como nenhum outro não é só o país das cantoras ou dos cantores, é o país da canção. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.

6 comentários sobre “Cantores do Brasil

  1. Bom dia Patrícia!
    Lindo texto…quanta gente MARAVILHOSA, inesquecíveis lembrada por você.Obrigada sempre e FELIZ ANIVERSÁRIO, que DEUS te abençoe e proteja e que continue sempre fazendo esse trabalho lindo, trazendo tanta informação de qualidade e prazerosa, iluminando nossas vidas.OBRIGADA. bj

  2. Não entendo todo o encantamento que têm com o Thiago Petit…
    Não vejo nada de especial, além de achar um compositor fraco e muito caricato.

    Dessa galera paulista do Studio SP que tanto incendeiam só se salva a Tulipa Ruiz.
    Tem gente muito melhor hoje, fazendo um trabalho muito mais interessante.

    Abraços Patrícia, fico sempre esperando ansioso pelo seu próximo post… Trabalho belíssimo o seu.

  3. “Pra machucar meu coração” com Rosa Passos é de arrepiar. O baixo de Jorge Helder e o piano de Marcos Brito desenham a harmonia. Vale demais ouvir.
    Da nova safra de cantoras, a Tulipa é a que apresenta um trabalho mais consistente e autoral. Ela é ela, sem máscaras. Os arranjos são incríveis, dialogam bem com a tradição de Veloso e Barnabé; as letras são inventivas, ora inusitadas, como nos versos ” a promessa de continuar a fazer da minha vida um bordado/de renda, de chita ou filó//Brocal dourado”.
    Abraço
    Renata
    http://www.1claroenigma.wordpress.com

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