A MAIOR CANTORA DO BRASIL

*texto publicado no sábado, 02 de junho, na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música do Estadão.

Fui ao show Recanto de Gal Costa e fiquei absolutamente emocionada. É tão bom quando um artista nos tira do lugar. Desde as primeiras noticias sobre esse cd minhas expecativas foram grandes. Adoro Gal Costa. Sou fã e admiradora de sua trajetória na história da música brasileira. Recanto não me deixou na mão. Amei o cd. Dificil na primeira audição, impactante e avassalador logo depois. As estranhezas que Kassin inventa, o piano de Daniel Jobim, o violoncello de Jacques Morelenbaum, o Rhodes de Donatinho, prato e faca de samba de roda do Reconcavo tocados por Moreno Veloso, programações, sintetizadores, e dois violões apenas: Caetano em Tudo Dói, e Luiz Felipe de Lima no 7 cordas em Recanto Escuro. Produção primorosa e nada convencional de Moreno e Caetano Veloso. Queria muito ver isso tudo no palco.

Caetano dirigiu o espetáculo de roteiro primoroso. Ela cantou Baby, Divino Maravilhoso, Mãe, O Amor, Vapor Barato, clássicos de seu longevo e fundamental repertório e, claro, as novas canções.

Depois de Recanto, o show, posso dizer: Gal Costa é a maior cantora do Brasil. Torquato Neto já dizia isso em 70 quando Gal fez o Fa-Tal. E eu repito isso agora em 2012, com o Recanto. Que artista maravilhosa! Entrou com rouquidão, desafinou, se desculpou, assumiu uma faringite e depois só arrasou. Foi nas notas mais baixas, nas mais altas, emocionou e fez chorar. Foi aplaudida de pé no meio das canções. Que instrumento impecável, bem usado, que poder.

Recanto é um disco histórico. Gal e Caetano juntos outra vez. Estrearam juntos em lp com Domingo em 67. Pré tropicalistas com a referencia fortissima de João Gilberto, da bossa que tentavam inventar e desconstruir como dois quadradões desafinados na genial música manifesto Saudosismo. Autotune Autoerotico faz as vezes agora em 2012, diz tudo sobre a voz, a reinvenção, o artificial e nos leva ao delirio com a força dos versos e do caminho melódico que explora toda a força do instrumento Gal Costa. Neguinho foi outro momento marcante. No disco tem o baixo de Kassin, a guitarra de Pedro Sá, programação e sintetizadores de Zeca Veloso. No palco tem Pedro Baby maravilhoso na guitarra e violões, Domenico Lancelotti totalmente genial na bacteria e mpc e Bruno di Lullo, baixo e violão.

Assisti Recanto pertinho de Caetano Veloso que tomava sua indefectível Coca-Cola. Quando Gal cantou com dificuldade no começo do show ela se dirigiu a ele, disse pra não ficar nervoso que ela faria um show bonito. E foi mais que isso, foi uma noite pra se guardar. O disco e o show tem um recado pra dar, ou vários. Mas o que mais diz é sobre a história dessa parceria. E responde aos que estão sempre querendo saber porque os tropicalistas são uma referência tão forte pra cultura nesse país jovem e diverso.

Caetano Veloso tem sempre o que dizer. Suas canções fazem pensar, emocionam, encantam. As letras de Recanto são de uma beleza e de uma dor que há muito esperava ouvir com essa voz tamanha. Um repertório que faz juz `a ela, que é perfeito pra essa mulher importante, essa cantora emblematica.

Eu nunca fiz o coro dos que detrataram Gal Costa por conta de seus discos corretos mas pouco originais cobrando mais revolução fora do tempo. Eu esperava sempre por algo mais com a certeza desse potencial e com o crédito que ela tem por tudo o que já foi feito. Nem preciso listar aqui suas gravações definitivas, antologicas. São conhecidas por todo o Brasil. Fato é que Recanto é um grande disco. Procure saber. Se ainda não ouviu, corra pra se assombrar. E caso esse show se repita, não perca. Coisas sagradas permanecem mas o momento passa ligeiro.

Ouvido Absoluto: O Brega é Pop. E eu adoro

Saiu minha coluna no Estadão do último sábado. Muito feliz e honrada faço parte do time do Ouvido Absoluto junto com Roberto Muggiati(jazz), Gilberto Mendes(erudito), Nei Lopes(samba) e Claudia Assef(eletrônica). Escrevi esse último texto depois de voltar de Belém do Pará e me lembrando de uma linda viagem que fiz pra São Luiz do Maranhão convidada por Rita Ribeiro. Reproduzo aqui.

O BREGA É POP

Estive em Belém e voltei totalmente encantada pela cidade, seus sabores, seu calor e mais que tudo com a música do Pará. Ouvi a guitarrada dos Lobato, o tecnobrega de Gaby Amarantos, visitei uma aparelhagem, dancei o carimbó chamegado de Dona Onete e curti muito o pop kitsch de Felipe Cordeiro.
Felipe é um jovem músico, produtor, compositor e um dos principais nomes da cena contemporânea em Belém. Seu show é colorido, dançante e divertido. Ele se veste como os cantores do gênero, as letras falam de um amor descarado e as guitarras fazem aquele solinho safado de bom que a gente já pode identificar em varios artistas pelo país afora. O brega está contagiando o país. O acento aparece no trabalho de Karina Buhr, de Andreia Dias, de Bárbara Eugênia, na guitarra de Fernando Catatau, nas baladas doloridas do Pélico e até nas indefectíveis canções de amor de Marisa Monte.
Comecei a entender o brega em sua essência quando estive no Maranhão com as irmãs Elza e Rita Ribeiro pra conhecer a Festa do Boi. Foi uma semana linda, colorida, inesquecível, quando pude ouvir os diversos sotaques dessa festa: pandeirão, orquestra, matraca… É um mundo!
E voltando do tradicional Boi do Maracanã, a pé na madrugada, passamos por um terreiro pequenininho, todo enfeitado, em frente à uma pequena capela. As meninas entraram pra uma bençãozinha rápida e sairam dançando juntas quando começou a tocar uma música no alto falante. Cena de filme do Lírio Ferreira em co-direção com Pedro Almodóvar! Tudo colorido e com essa mistura maravilhosa que é típica das festas populares no Brasil, a religião e o prazer. Não sei qual era a música, mas elas conheciam muito bem e se divertiram a valer.
Esse é o brega. Música romântica, fácil, cheia de clichês, e boa de dançar junto.

A turma mais inteligente consome o brega que Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto resolvem gravar e deixar chique. Mas esperto mesmo é quem vai na fonte. Tem que ouvir Odair José, Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e a música do Pará, o nosso pop-rock-brega-contemporâneo. E como já disse Rita Ribeiro, “tropicalistas somos todos nós”. O romance está na veia do brasileiro e essa visita ao cafona faz parte da nossa tradição. Voltando ao Caetano tropicalista, muito antes de gravar Peninha ele colocou o drama Coração Materno, de Vicente Celestino, na boca do povo mais descolado.

Marisa Orth que é atriz e cantora das boas, adora o brega. Fez uma apologia ao gênero com o show Romance Vol.II que tem exatamente esse acento dramático. Ela canta “Dores do Mundo” do repertório clássico do soul man Hyldon, “Sofre” de Tim Maia (ele mesmo um brega black funk soul) e a genial “Insanidade Temporária” de Flávio Souza e André Abujamra que é um brega legítimo – uma história de amor e morte! O clipe, dirigido por Ivy Abujamra é sensacional!

Brega é também como se chamam as casas de prostituição no norte e nordeste onde esse tipo de música de dançar coladinho sempre fez sucesso. Dos bregas foi pras rádios e virou gênero. Na definição da Enciclopédia da Música Brasileira se diz que o termo é usado formalmente desde 1982 e copio aqui o verbete: Brega – coisa barata, descuidada ou mal feita; sinônimo de cafona; música mais banal, óbvia, direta, sentimental e rotineira possível…
E isso não é bom demais? Como já disse o poeta, não são ridículas todas as cartas de amor? O brega é pop e eu adoro.

Ouvido Absoluto: Há poesia na letra da canção

A poeta Alice Ruiz é mestre em hai kai e creio que justamente por sua capacidade de síntese está cansada do debate poesia versus letra de música. Nos encontramos numa festa essa semana e estávamos as duas ainda sob os efeitos do espetáculo Totatiando que Zélia Duncan apresentou em São Paulo em temporada no Sesc Belenzinho. Contrariando o nosso cansaço com o tema acabamos conversando sobre a poesia nas canções que viraram o estofo, a linha mestra, o texto enfim dessa linda encenação.

Há poesia nas canções de Luiz Tatit. Não são poemas, são até mais crônicas da miséria humana, da delicadeza de ser sensível nesse mundo bruto. E o irônico é que Luiz Tatit é um dos defensores da idéia de que letra é letra, poema é poema. Assim como Arnaldo Antunes, ele mesmo um poeta e excelente letrista. Concordo. Mas que a canção é um suporte pra poesia como bem disse Paulo Leminski já nos anos 70, ah, isso é. Até mesmo em Luiz Tatit. “Esboço”, ouso dizer, me lembra Manuel Bandeira! Compare comigo: “Corpo de moleque / corpo de borracha/ todo amolecido / dobra tudo / nada racha/ dizem que é um esboço / que é alguém de carne e osso/ dizem que é um colosso/ por dentro e por fora / é gente como a gente/ a gente sente / porque se aperta ele chora”. Agora, Bandeira: “Quando eu tinha seis anos/ ganhei um porquinho da India./ que dor de coraçao me dava/ porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!/Levava ele pra sala / pros lugares mais bonitos mais limpinhos / ele não gostava:/queria era estar debaixo do fogão./Nao fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…/ meu porquinho da India foi minha primeira namorada.”

Há poesia na letra das canções. Ninguém há de negar. É claro que há poemas que não se prestam à música, e há os que são feitos já com ritmo, com métrica, como se nascessem pra virar letra e ganhar público além dos livros. Ouça “Retrato do Artista Quando Coisa” de Manoel de Barros com Luiz Melodia. Só voz e cordas, é todo um poema.

Um efeito colateral muito desejável desse encontro entre os poetas e os músicos é que a poesia pode se tornar popular. Até mesmo a poesia contida nesse canto falado de Luiz Tatit, nesse discurso poético que muitas vezes permanece escondido na forma. Quando Zélia Duncan, uma artista popular, leva pro palco de um teatro um espetáculo que propõe esse diálogo entre as artes presta um serviço imenso para a cultura brasileira. Mistura, apresenta, transforma, renova, dá de presente a felicidade que é ouvir poesia sem saber que é isso que se está ouvindo. O tal conceito da mascara de Deleuze, primeiro você seduz com o simples, com o fácil e gostoso e sem querer o profundo se estabelece.

A arte de escutar é a mais acessível de todas as formas de arte. E nos livra da ignorância através da possibilidade do conhecimento da beleza. Escutar é fundamental para o ofício da música. Monica Salmaso é tida entre os instrumentistas excelentes com quem ela grava e se apresenta como mais um musico entre eles, tal é o nivel de conversa que se dá. O resultado é excepcional como se ouve em Alma Lirica Brasileira, por exemplo. Não por acaso José Miguel Wisnik e Tom Zé misturam muito música e futebol. Como ouvi de um amigo esses dias: gosto de bater bola com quem sabe como eu jogo. Lembrei de ter ouvido um critico de musica dizer que Chico Buarque esta acomodado porque toca com os mesmos musicos há tempo demais, eu digo que ele está confortável tocando com os amigos. Bandas são formadas assim. Afinidades mais do que simplesmente musicais. Amigos tocando juntos. O Clube da Esquina, momento icônico da história da nossa música, foi exatamente isso.

Também há conversas pouco amigáveis, desafios musicais. Dizem que aquele encontro histórico entre Elis Regina e Hermeto Pascoal em 79 foi muito tenso. Ao vivo em Montreux eles fizeram juntos alguns clássicos sem combinar antes. Ficou incrível, mas já ouvi fontes seguras dizendo que Elis ficou mesmo muito aborrecida.

Voltando à felicidade atraves da troca legitima me comovi muito com Totiando. Conheço bem a obra de Luiz Tatit mas com essa luz nunca tinha visto. Que bons ventos levem longe esse discurso. E que mais diálogos como esse aconteçam por aqui. Que mais e mais se tenha poesia pra tocar no radio – nome inspiradíssimo de um livro que compila as letras/poemas de Alice Ruiz que viraram canção nas parcerias com Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes e muitos mais. Alice e Antonio Cicero são nossos poetas mais ativos nesse universo. Procure saber. Leia Manuel Bandeira em Villa Lobos, Cassiano Ricardo em Secos e Molhados, Ferreira Gullar em Adriana Calcanhotto, Drummond em Milton Nascimento, Oswald de Andrade em Caetano Veloso. Há poesia na canção e em todo lugar.

*Texto publicado originalmente no Caderno C2+ Musica no jornal O Estado de São Paulo – coluna Ouvido Absoluto (24/09/2011)

Prefere ouvir? Ouça Aqui:

Cantores do Brasil

Nesse domingo tranquilo me dei o prazer de ouvir velhas canções no Ipod mais antigo da casa. Me deparei com João Gilberto e o excelente Amoroso, disco que me destruiu de tristeza imcompreensivel aos 18 anos. Hoje, às vésperas de fazer 46, entendo tudo. Impossível não chorar ouvindo “Retrato em Branco e Preto“, de Chico Buarque e Tom Jobim, mesmo sem ter jamais vivenciado algo parecido. E João Giberto cantando é comovente, muito comovente. “Pra Machucar Meu Coração” de Ary Barroso que ele gravou no clássico Getz/Gilberto de 1964 é outra dessas pérolas, exemplos do melhor do nosso cancioneiro, com Tom Jobim ao piano.
Como é bom ouvir um bom cantor. E como são poucos os espaços em que se falam desses nossos cantores do Brasil.
Escrevi recentemente na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música, um texto sobre isso. Devo dizer que faltou espaço pra falar de todas as vozes masculinas incríveis que temos nesse país. Hoje, me lembrei deles depois de ouvir o Amoroso e peguei Foreign Song de Cetano Veloso, que é uma maravilha… que repertório bem escolhido, que deliciosas interpretações.
Coloco aqui João e Caetano. João canta Caymmi e Caetano, Arthur Hamilton. Standards da canção internacional.
E na sequência copio o texto da coluna do Estadão.

CANTORES DO BRASIL

Muito se fala que o Brasil é um pais de cantoras e é verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, às grandes divas da era do radio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Bethânia, a lista é infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zélia Duncan e a expoente máxima dessa geração – que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferença, Cássia Eller.
Da novissima geração tenho falado muito e graças ao meu trabalho no radio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um cd pela gravadora Jóia Moderna, o Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Rennó, Nina Becker e Bárbara Eugênia. O trabalho revela a diversidade do momento atual da música pop brasileira, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade única e inteligente de altissima qualidade.
Agora, e os cantores? Será que não é injusto dizer que esse país não é deles? Francisco Alves – o cantor das multidões; Orlando Silva – o rei da Voz. O charmoso Mário Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contrario dos aqui citados ídolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnológico. E Cyro Monteiro? Que divisão, que suingue! E o grande Jamelão arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o ultimo dos galãs do radio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava tão determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma prótese para parecer mais atraente à juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fenômeno! Quando eu era ainda uma iniciante no radio tive a oportunidade de entrevista-lo e foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi. Levei uma pilha de lps pro estúdio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, assíduo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e também com o microfone. Ciente da magia do veiculo e do poder de sedução da sua voz ele se dirigia diretamente às suas fãs e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!
E entre nossos cantores também há uma enorme diversidade de estilos, é claro. Até no mesmo gênero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simpatica, quase clássica. Luiz Melodia é pra mim um dos maiores, uma voz que não perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excelencia, criador de clássicos, é dessas vozes que eternizam uma canção. Caetano Veloso, em fases em que composiçao não vem tão linda e forte, grava como interprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, só recomendo ouvir em caso de dúvida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.
Mas temos hoje uma diferença interessante com relação ao tempo em que se chamava o Brasil de um país de cantoras ou em que o vozeirão de peito é que fazia fartura. Tenho a impressão que a mudança começou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa geração, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico César, por exemplo. São excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas não é o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da geração seguinte segue pelo mesmo caminho. Léo Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar é um cd de autor. Rômulo Fróes lembra até Paulinho na Viola na sutileza do registro mas é mais no discurso, na coerência da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretensões mas bem gostosinho.
Ainda assim há os que se esmeram no oficio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da França onde fez canto erudito. Filipe Catto é um raríssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na preparação vocal, e é um charme com seu jeito cool de bem comportado carioca. Diogo Poças lembra Mário Reis.
São muitos e só pra confirmar a teoria antropofágica tropicalista que vai até o amálgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacreditável. O país que mistura e transforma como nenhum outro não é só o país das cantoras ou dos cantores, é o país da canção. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.

França e Brasil, o samba com sotaque desde 1932

assis_valente05Tem francesa no morro foi o primeiro samba de sucesso do grande Assis Valente. Foi gravado em 1932 por Araci Cortes. Era uma sátira ao costume burguês da época de usar expressões francesas no meio da conversa. Coisas de colônia que um mulato brasileirissimo não suportava e criticava nesse bom humor.
Assis Valente foi um compositor genial e teve uma vida muito difícil. Reproduzo aqui o ótimo texto de Carô Murgel que conta muito bem essa história:

Assis Valente nasceu em 19 de março de 1911, em Santo Amaro, BA. Teve, desde criança, uma vida bastante conturbada. Até os 10 anos foi roubado dos pais, trabalhando em regime de semi-escravidão em casa de família e se tornado ajudante de farmácia. A família que o fez trabalhar também o fez estudar durante a noite – e Assis se tornou, aos dez anos, um discursista de primeira qualidade, além de declamador (adorava Guerra Junqueiro e Castro Alves).

Aos 10 anos foi trabalhar em um circo, como declamador e comediante – mas isso logo deixou Assis cansado. Foi para o Rio exercer a função de protético (suas dentadura ficaram famosas – Lamartine Babo costumava chamá-lo de “O Pivô do Samba”). Gozador, sua primeira música e sucesso é Tem Francesa no Morro, gravada por Araci Côrtes (Done muá si vu plé lonér de dancê aveque muá…).

Assis compunha sempre já pensando na pessoa que cantaria seu samba. Quando conheceu Carmem Miranda ficou boquiaberto com a cantora. Tentou se aproximar tendo aulas de violão com um homem que julgava ser o pai adotivo da cantora. Engano. Decidiu então compor um samba em exaltação à Bahia. Carmem gostou e gravou. Para o outro lado do disco, Assis compôs a famosa Good Bye, Boy.

O sucesso na voz de Carmem Miranda foi estrondoso, e Assis seguiu compondo para ela: Camisa Listada, Uva de Caminhão, Minha Embaixada Chegou, …E o Mundo não se Acabou. Uma produção grande e impecável. Quando Carmem foi para os EUA, Assis se sentiu abandonado – mas já era bastante procurado por outros cantores, que adoravam suas músicas.

Quando soube que Carmem viria ao Brasil, Assis correu para compor duas músicas para ela: Recenseamento e Brasil Pandeiro. Carmem gravou a primeira e disse, sobre a segunda: “Assis, isso não presta. Você ficou borocoxô”. Isso magoou profundamente o compositor, por saber que a música era de boa qualidade – e por ver o sucesso que fez posteriormente nas vozes dos Anjos do Inferno.

E foi a tristeza que fez com que ele tentasse o suicídio duas vezes, morrendo finalmente na terceira tentativa. Eram 6:00 da tarde de 6 de março de 1958.

Carô Murgel

Agora vejam Maria Alcina, a nossa última vedete, cantando no Sesc Pompéia essa pérola de Assis Valente com o Lingua de Trapo. A banda, que não é pouca batatinha, faz referências à outras músicas da época e ao mestre Ernesto Nazareth. E a letra também vai aqui porque vale a pena acompanhar.

Tem Francesa no Morro (Assis Valente)

Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá
Dance Ioiô
Dance Iaiá
Si vu frequenté macumbe entrê na virada e fini por sambá
Dance Ioiô
Dance Iaiá
Vian
Petite francesa
Dancê le classique
Em cime de mesa
Quand la dance comece on dance ici on dance aculá
Dance Ioiô
Dance Iaiá
Si vu nê vê pá dancê, pardon mon cherri, adie, je me vá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Viva Assis Valente e a presença da França no Brasil.
Semana que vem tem Tante Hortense e Revista do Samba no Vozes mostrando que o samba com sotaque tem lá o seu charme. Não dá pra perder!!

Mano Brown, Seu Jorge e a Banda Black Rio

Tive uma incrível surpresa na tarde de hoje. Fui até a YB gravar o Vozes do Brasil com o Nouvelle e antes de começar encontrei Willian Magalhães da Banda Black Rio. Já estava ótimo! Daqui a pouco chega Seu Jorge com quem tenho muito assunto sempre, gostamos de conversar. E é ele que conta tudo sobre o novo disco da Black Rio que vem com participações especialíssimas. Entre eles, Seu Jorge e Pedro Paulo Soares da Silva a quem tive o prazer de ser apresentada hoje. Ele é Mano Brown, o aperto de mão mais forte que já ganhei na vida!
Pedi a foto pra registrar o momento. Afinal, não é todo dia que uma tarde jazzy traz de bônus um encontro desses.
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E só pra lembrar, a Black Rio misturava funk, jazz, samba e outras bossas no Rio de Janeiro da década de 70 sob a batuta do saxofonista Oberdan Magalhães. É antológica a versão de “Na Baixa do Sapateiro” de Ary Barroso e o disco “Maria Fumaça” virou objeto de desejo de djs internacionais. Em 1999, Willian Magalhães, filho de Oberdan, retomou a banda e agora traça um novo caminho mantendo a base funk/soul com a boa música contemporânea. Esse disco novo vai ser arrasador!!!

Onde está Zélia? Momento “duncanmaníaco” no Ibirapuera

P1000830Em turnê de lançamento do novo cd “Pelo Sabor do Gesto”, Zélia Duncan me recebeu rapidamente pra um papo entre dois shows no mesmo dia. O primeiro foi num domingo de sol no Ibirapuera e foi nos camarins do lindo auditório que nos falamos. Do lado de fora “duncanmaniácos” aguardavam ansiosos por sua saída e é de lá essa foto que estampa o post. Só se pode ver o braço de Zélia entre a turba amorosa e quase incontrolável.

no meio da confusão, onde está Zélia?

no meio da confusão, onde está Zélia?


Depois de presenciar a cena me lembrei da entrevista que fizemos para meu primeiro livro, o Vozes do Brasil vol.1 quando conversamos sobre tudo, inclusive a relação com os fãs. Falamos de “Catedral”, seu primeiro grande sucesso, e da identificação com o artsita através da música. Transcrevo aqui um trecho:
(…) Numa ocasião anterior, a gente falou sobre essa conversa sua com a platéia. Você disse: “É, agora estou deixando rolar…”
Já foi mais tenso. Quando sinto que o público me conhece eu relaxo um pouco mais. Também é a minha maneira de reagir (…) Há dias em que me sinto bem pra responder e me dou ao luxo de brincar e falar.
Já vi jogarem pétalas de rosa pra você no palco… Seus fãs são muito efusivos e calorosos. Como é essa proximidade?
Houve uma fase de adaptaçao. Tanto minha quanto deles. Depois de tanto tempo no anonimato, às vezes dá vontade de mostrar a cada uma dessas pessoas o quanto você está grata. (…) Demorei um tempo pra achar esse meio termo. Um dia, depois de um show, fiquei muito cansada, estava chovendo demais, e resolvi não receber ninguém. Isso criou um problemão lá fora! Forçaram a porta e começou uma guerra entre quem dizia que eu já era outra e quem não pensava assim. (…) O fã-clube tem um fanzine e escrevi uma carta pra eles. (…) Foi uma maneira legal de dizer: “tenho os meus limites e são estes”. As coisas melhoraram.
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Na entrevista tem muito mais. Zélia Duncan foi a primeira artista e me conceder algumas horas pra esse projeto tão importante pra mim: registrar em livro uma geração de artistas que eu admiro e que estão fazendo uma enorme diferença na música brasileira hoje.
Essa conversa foi em 2001 e é interessante ver como é coerente o discurso de então com os rumos de sua carreira. Logo depois Zélia Duncan faria o incrível “Eu Me Transformo em Outras”, um disco que lançou luz sobre a excepcional intérprete e conhecedora da tradiçao da música brasileira, foi um divisor de águas em sua história.

Aqui uma das canções do disco novo:

No Vozes dessa semana tem um papo rápido sobre o acento francês de seu novo disco. Em poucas palavras ela conta a história das canções de Alex Beaupain e da gravação de Telhados de Paris de Nei Lisboa (sobre isso tem um post anterior aqui mesmo no blog).
Pra ouvir confira a sintonia na sua cidade na página Vozes do Brasil no Rádio ou acesse o Território Eldorado na internet (link aqui ao lado).