Ecos do Pará

Houve um tempo em que parecia longe, mas agora o Pará é logo ali. Recebi a visita de Nicolau Amador, raoaz engajado na divulgação da cultura de seu estado e ganhei uma pilha de cds que vão dos mestres do carimbó ao mais puro rock’n roll. Fiquei impressionada com a variedade.
E com a capacidade de articulação dessa moçada. Logo que saiu de São Paulo Nicolau postou nosso papo no blog ProRock. Copiei aqui pra vocês mas o link fica como indicação porque vale a pena.

E também é do Pará o talentoso Arthur Nogueira que a audiência do Vozes do Brasil já conhece. Ele acaba de me mandar esse lindo clipe da canção $Cara de Marina Lima e Antonio Cícero que fas parte do cd Mundano. Diz que Marina adorou! Direção de Alexandre Nogueira, fotografia de Thiago Kunz e edição de Thiago Pelaes. Veja o vídeo e depois saiba mais sobre Arthur Nogueira no site oficial.

Além do Pro Rock que linkei acima tem o incrível Terruá Pará, que junta tudo num lugar só. Segue aqui o link. E nesse domingo, abrindo a rede Vozes do Brasil, cobertura do Conexão Vivo Salvador nos 107,3 em São Paulo. Pra conferir outros horários e emissoras abra VOZES DO BRASIL NO RADIO.

Gilberto Gil, as guitarras e seu incrível violão

Já é bem conhecida a história da época dos Festivais quando houve aquela “passeata contra as guitarras”. Uma estratégia para divulgar um programa de tv, o Frente Única, que tinha Geraldo Vandré entre os apresentadores e principais defensores da MPB. Gilberto Gil participou, mas estava do outro lado. Estava curioso com os novos sons, querendo universalizar a nossa música pop, encantado com os Beatles e as novidades que vinham de fora. Foi logo depois que ele chamou os Mutantes com suas guitarras e atitude para defender “Domingo no Parque” por indicação de Rogério Duprat.
É conhecido também o talento de Gil como músico instrumentista. Sempre que aparece com seu violão é sensível a diferença, a personalidade, a delicadeza que ele impõe à canção. Quando ele se acompanha, sozinho, nos proporciona momentos especiais e por isso é tão bem vindo esse novo trabalho acústico. Liminha, que foi produtor do BandaDois, resume o trabalho como uma volta ao começo. Quem disse que é fácil ser simples?

A linha e o linho

Agora, pra lembrar daqueles anos loucos, vamos ver Gilberto Gil encerrando um programa de tv com Caetano Veloso aparecendo no final só de farra. Eles tinham acabado de voltar do exílio. Reparem nas imagens da coxia.

back in bahia

Maquinado, Ed Motta e Steely Dan, sabe onde se encontram?

Na música, é claro. Na música que cada um deles faz em diferentes partes do país e do mundo. Steely Dan é a fantástica banda de Donald Fagen que teve como grandes sucessos “Do It Again”, “Rick Don’t Loose That Number” e outras delícias com um suíngue de matar. Teclados incríveis, uma bateria espetacular e aquela levada de guitarra bem anos 70, bem solta, gostosa. Ed Motta adora e vive falando deles. Num dos shows do disco “Segundas Intenções” ele fez um improviso com scat singing num lindo teclado Rhodes vintage homenageando uma de suas bandas preferidas. Veja só:

E agora, o Maquinado, ninguém menos que o guitarrista Lúcio Maia do Nação Zumbi em trabalho solo, me aparece com uma canção que é a cara do Steely Dan. Com sotaque pernambucano e acento meio brega nordestino meio Roberto/Erasmo. Uma delicia total! A música se chama “Pode Dormir” e tem uma letra incrivel que diz coisas romanticas bem boas de ouvir como: “então me abrace, o sol já pode dormir…”
E a levada percussiva é a cara dessa música do Steely Dan que a gente já viu aqui com o Ed Motta e agora pode ver na versão original numa gravação ao vivode 1973. Adoro!

Pra ouvir o Maquinado e a canção “Pode Dormir”, se ligue no Vozes do Brasil, essa música e outras do novo cd Mundialmente Anônimo já estão no playlist.

Takai e Cherhal cantam Berimbau no Station Brésil

remy e euQuando entrei no palco, ao lado de Rémy, para apresentar essa noite do Station Brésil lembrei da ciranda e do mangue beat de Pernambuco. Somos antropofágicos por natureza. Por isso é muito bom assistir um encontro onde os artistas se entregam à proposta da mistura. A francesa Jeanne Cherhal tem sido minha preferida nessas noites de Station Brésil. Pros brasileiros a brincadeira já faz parte, é comum a integração e existe até, ouso dizer, uma facilidade em correr atrás da nota, aceitar um desafio.
No caso de Jeanne me impressionou a dedicação e a vontade de fazer direito com tão pouco tempo de ensaio. Com a Banda de Pífanos em João Pessoa ela já tinha arrasado e em Recife ela teve a sorte de encontrar Fernanda Takai que também leva a sério esse tipo de oportunidade. Elas fizeram juntas duas músicas. A primeira foi Berimbau, da leva Baden/Vinicius, bastante conhecida na França. A segunda, já no show de Jeanne, foi em francês, com Fernanda tirando de letra um repertório apresentado a ela naquele mesmo dia. Que orgulho!!
jeanne takai perto

Outro bom momento foi o encontro de Mariana Aydar com Spleen. Eles fizeram juntos uma música da francesa Camille, que já esteve algumas vezes no Brasil e tem fãs e parceiros por aqui. Duas energias bem diferentes no mesmo palco e deu certo! Spleen faz um som mais visceral, hip hop, funk, masculino. E Mariana é aquela doçura que a gente conhece.
Foi a primeira vez que ela se apresentou em Recife e o público a recebeu muito bem! Cantaram junto e alto todas as canções que ela fez: “Zé do Caroço”, “Deixa o Verão”, “Peixes”, foi lindo de ver! A banda foi montada com Duani nas percussões, bateria, cavaquinho e a luxuosa participação de Webster Santos e Paulinho Lepetit.
kavita e spleen
Fecharam a noite dois bardos: Zeca Baleiro e Louis Bertignac que acabaram fazendo Beatles no momento da jam. O público adorou.
Pra saber mais, ver as fotos oficiais e a cobertura em francês do meu colega Rémy, acesse o site:
http://www.stationbresil.com.br/

Hoje tem Erasmo Carlos no Vozes!!

imagesEu já tinha anunciado aqui um dia depois da gravação com ele. Mas hoje, aqui por São Paulo, vai pro ar a entrevista que fiz com Erasmo pro Vozes. Ele fala de “Coqueiro Verde”, de Marisa Monte, de Fernanda Porto, Arnaldo Antunes e, claro, do seu disco novo “Rock’n Roll”.
Como eu já falei bastante sobre ele resolvi colar no blog o texto da Rita Lee, olha só que luxo!!!

ERASMO CARLOS – ROCK’N’ROLL

Por Rita Lee

Rock não é coisa para maricas. Erasmo está aí que não me deixa mentir. Ao ouvir esse último trabalho imagino o “gentle giant” cantando no palco vestido de couro preto da cabeça aos pés enquanto marca o beat da música com a mão na coxa. Desde Marlon Brando e James Dean sou chegada num bad boy. Erasmo era o bad boy da Jovem Guarda, o que para mim significa ser ele o verdadeiro pai do rock brasileiro. E no meio dos trocentos clones que poluem as atuais paradas de sucesso com suas mesmices, eis que nosso Tiranossaurus Rex abre alas só com inéditas.

As músicas são a simplicidade com trombetas. As letras o pretinho básico com diamantes. O backing vocal um coral de anjos infernais. Os instrumentos e os arranjos são pérolas do bom gosto (rola até um Farfisa e um Hammond no meio de modernidades sonoras). E toda essa farra pilotada pela produção de Merlin Liminha. Graças aos deuses Erasmo é Erasmo, uma sacação genial se dizer cover de si mesmo no meio dos Elvis, Robertos, Rauls e Beatles, seus roqueiros porretas.

Você vai ouvir um macho apaixonado pelas fêmeas do planeta sem o menor pudor. Entre mulheres melancias, samambaias, melões e jacas, só Erasmo para proclamar aos quatro ventos que a mulher é uma guitarra.E rola de tudo no salão. Melodias lacrimejantes, harmonias delicadas, rocks gaiatos, baladas românticas, declarações rasgadas, deboches safados, conselhos para dor de cotovelo, guitarras sutis, baixos esquisitões, enfim: Erasmo Rock’n’Roll Carlos me deu uma baita inveja da leveza com que ele conduz seu barquinho por entre as tempestades e calmarias da vida. Erasmo, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!

E agora uma gravação antiga da MTV com Edgard novinho mostrando um encontro entre Marisa Monte e o querido Erasmo.

Pra ouvir o Vozes confira as emissoras e horários na página Vozes do Brasil no Rádio aí em cima do blog.

Em frente ao Coqueiro Verde com Erasmo Carlos

Uma das músicas que eu mais gosto da década de 70 é “Coqueiro Verde”, de Erasmo Carlos. É uma música divertida, feita como uma crônica daquele tempo e que tem uma levada totalmente atemporal. Se tivesse surgido hoje seria uma música moderna, nova, original. O trio Mocotó fez como samba rock, por exemplo, e é uma versão deliciosa.
DSC01573Encontrei com Erasmo Carlos na Rádio Eldorado. O gigante gentil passou por uma verdadeira maratona, fez todos os programas possíveis, de am e fm, entrou no ar ao vivo, falou até de futebol. E eu fiz um Vozes com ele, claro.
Como não aproveitar a ocasião?
Ele está lançando o novo disco “Rock’n Roll”, faz show em São Paulo e tá super feliz com esse movimento todo.
Fiz Erasmo me contar a história dessa música, “Coqueiro Verde” e ele gostou da proposta, ficou feliz de ter lembrado da canção. Trio Mocotó, Seu Jorge e Zeca Pagodinho já gravaram.
Coqueiro Verde também é o nome da gravadora de Erasmo.

Aqui uma versão do Trio Mocotó gravada em Hamburgo. Tem participação do Skowa e o grande João Parahyba apresenta a canção como uma música feita pra dançar junto. Muito bom!!!

E aqui uma pedacinho do show novo de Erasmo com essa banda incrível montada por ele com Dadi, Liminha e os Filhos da Judith. Definição dos próprios no Myspace: “FILHOS DA JUDITH é uma Beat Band carioca com raízes fincadas no rock n’ roll clássico. O iê iê iê distorcido do novo milênio é o marco inicial do movimento Drive n’ Beat.”

Ainda não sei que dia vamos colocar a entrevista no ar, mas aviso por aqui.

Erasmo rock’n roll, Arnaldo iê iê iê

Uma feliz e divertida coincidência reuniu esses dois monstros da música pop brasileira. Erasmo Carlos, um dos precursores do iê iê iê no Brasil lança um cd chamado Rock’n Roll. Arnaldo Antunes, que foi emergente do rock brazuca, lança um cd chamado iê Iê Iê.
Claro que não passou batido pelos próprios. Arnaldo menciona o Tremendão em seu release de apresentaçao e Erasmo acabou escrevendo pra Folha de São Paulo uma resenha do novo trabalho do nosso poeta pop star.
Aqui vão os textos:

Titã do Iê Iê Iê
Erasmo Carlos

Folha de S.Paulo – 18/09/2009
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Iê-iê-iê é o apelido brasileiro dado ao rock que se fazia nos anos 60. Era ingênuo na contestação e romântico por natureza. Mesmo assim, atingiu o nível de revolução cultural dando voz à juventude da época e instigando mudanças de comportamento. Esse tsunami histórico impôs a trilha sonora da infância de um pacato cidadão mirim chamado Arnaldo Antunes, que arquivou nos porões do seu imaginário a magia do som dos Beatles e da jovem guarda.
Quarenta e nove anos depois, ele nos presenteia com esse delicioso resgate afetivo dos tempos em que ainda se sonhava acordado. E POW! As lembranças soam contemporâneas graças à sonoridade, que vem com certificado de qualidade, encontrada pelos amigos da banda, o gol de placa da feliz interação/ inspiração das parcerias e, é claro, as “sacadas” geniais que só um multiartista fantástico como ele tem.
Adorei “Invejoso”, “Envelhecer” (me identifiquei), “Longe”, “A Casa É Sua” (linda) e… todas. A grandeza do poeta é ir além do pensamento e decodificar as emoções que o medo, a inabilidade, a acomodação e a hipocrisia não expõem. Arnaldo faz isso muito bem, com humor e com amor. Afinal de contas, o iê-iê-iê também é dele.

ERASMO CARLOS , 68, é cantor e compositor

Iê iê iê por Arnaldo Antunes

Iê iê iê é uma palavra que não está no dicionário, mas todo mundo sabe o que significa. Música jovem de uma época, com seu repertório de timbres, trejeitos, colares, carros e cabelos, o termo traduz um estilo que parece ter ficado parado no tempo, como se fosse um nome que se dava ao rock’n roll antes dele se chamar rock’n roll. Uma espécie de proto-rock, que se desdobrou em muitos afluentes de tendências e fusões.
Citado pelos Beatles em She Loves You (yeah yeah yeah) e por Serge Gainsbourg em Chez Les Ye Ye Ye, a expressão caiu na boca dos brasileiros para nomear a música da Jovem Guarda, motivando, na época, entre as mais diversas reações, os ternos versos de Adoniran Barbosa: “Eu gosto dos meninos desse tal de iê iê iê / Porque com eles canta a voz do povo / E eu que já fui uma brasa / Se assoprar eu posso acender de novo”.

(…)
Para mim, esse disco tem ainda um gosto de retorno a algo do início de minha carreira, quando formamos os Titãs, que nos dois primeiros anos de existência tinham o nome de “Titãs do Iê Iê”.

Arnaldo Antunes
maio de 2009

images-2ps: Já tinha terminado de escrever este release quando soube que Erasmo Carlos está lançando um disco novo, chamado “Rock’n Roll” (como o de John Lennon, que eu cito no texto). Achei uma coincidência simbolicamente interessante o fato dele, que começou sua carreira nos anos 60, dentro do que chamavam de iê iê iê, lançar esse disco na mesma época em que eu, que comecei nos 80, dentro do que chamavam de rock, esteja lançando meu IÊ IÊ IÊ.