A música que canta o que não pode mudar

Fado: Do latim fatum, que significa destino, o destino inexorável e que nada pode mudar. Pode ter nascido das canções trovadorescas, da saudade dos marinheiros ou do canto Lundum dos escravos negros do Brasil.

GUIA

Guia (Pierre Aderne/Marcio Faraco)

Atravessei o oceano
Sem o teu amor de guia
Só o tempo no meu bolso
E o vento que me seguia

Venci colinas de lágrimas
Desertos de água fria
Tempestades de lembranças
Mas tu já não me querias mais, mais
Tu já não me querias mais

Procurei a terra firme
Em cada onda que subia
O sol cegava meus olhos
Toda a noite eu te perdia

Lá dentro no pensamento
Virou tudo nostalgia
Água, sal e sofrimento
Porque tu não me querias mais
Tu não me querias mais

Já era Agosto, quando acordei na praia
E vi chegar a primavera, fiz nova cama de flores
Lembrei de todas as cores, cantei baixinho pra elas

Hoje falo em segredo, nessa paixão esquecida
Pra não acordar saudade, pra não despertar o medo,
Pois um amor de verdade, sonha pró resto da vida.

Mas tu já não me querias mais,
Tu já não me querias mais…
Tu já não me querias mais…

Nos primeiros acordes da guitarra portuguesa o clima já se instala. O instrumento é o parceiro ideal das canções dramáticas e derramadas que compoe o repertório de um cantor de fado. Antonio Zambujo, português que passeia com desenvoltura pela canção brasileira, já faz parte do repertório do Vozes com sua versão para “Quando Tu Passas por Mim”, de Vinicius de Moraes e Antonio Maria. Agora é parceiro de Rodrigo Maranhão e acaba de lançar no Brasil seu novo cd, Guia, cuja faixa título postei aqui. No site mais informações sobre o gajo que canta com voz de anjo as dores do amor não correspondido.

A poesia italiana de Cesare Pavese, a valsa portuguesa de Antonio Zambujo

Lavorare stanca
É curioso que me lembre dessa expressão em italiano assim solta sem saber de onde, mas fato é que quando encontrei o livro de Cesare Pavese, o título me soou familiar. Abri a linda edição de capa azul da Cosac Naify e foi um deleite. Estou aqui maravilhada com o ritmo, a melodia impressa nas palavras, os temas de Pavese. Ele fala do corpo, da terra, dos cheiros da Itália. “Trabalhar Cansa” é de 1943 e foi seu primeiro livro. Antes traduziu o incrível Walt Whitman, o poeta norte-americano de “Leaves of Grass” e mais tarde Gertrude Stein. Não por acaso. Basta ler os três para sentir o que tem em comum. De preferência em voz alta e na língua original.
Claro que uma boa tradução mantém a cadência, mas não é trabalho fácil. No caso de Cesare Pavese, nessa edição que tenho aqui, o tradutor é o premiado Mauricio Santana Dias que cita Italo Calvino: “Por mais difícl que seja traduzir os italianos, vale a pena fazê-lo; porque vivemos com o máximo de alegria possível o desespero universal. Se o mundo é cada vez mais insensato, a única coisa que podemos tentar fazer é dar-lhe um estilo.”


Prazeres Noturnos

Nós também nos detemos à escuta da noite
no instante em que o vento é mais cru: as estradas
estão frias de vento, e os odores se calam;
as narinas se erguem ao brilho oscilante.

Todos temos a casa que espera no escuro
nossa volta: no escuro uma mulher nos espera
estendida no sono. O aposento se aquece de cheiros.
Nada sabe do vento a mulher que descansa
e respira: o brando calor do seu corpo
é o mesmo do sangue que corre na gente.

E falando em poetas e escritores, essa semana no Vozes do Brasil teremos a voz de Omar Salomão, filho de Wally, em parceria e participação especial na canção “Freio de Mão” do jovem cantor carioca Qinho. Música e poesia da melhor qualidade no seu cd de estréia. E ainda o meu amado Antonio Maria – sou absolutamente louca por ele, em parceria clássica com Vinicius de Moraes na belíssima “Quando Tu Passas Por Mim”. Essa canção foi gravada por Aracy de Almeida, Nora Ney, Olivia Byington e pelo português Antonio Zambujo – essa é a versão que escolhi pra tocar.
Zambujo adora a canção brasileira e aqui mostro outro clássico com ele, “Lábios Que Beijei”, valsa de 1937, de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravada por Orlando Silva.