A MAIOR CANTORA DO BRASIL

*texto publicado no sábado, 02 de junho, na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música do Estadão.

Fui ao show Recanto de Gal Costa e fiquei absolutamente emocionada. É tão bom quando um artista nos tira do lugar. Desde as primeiras noticias sobre esse cd minhas expecativas foram grandes. Adoro Gal Costa. Sou fã e admiradora de sua trajetória na história da música brasileira. Recanto não me deixou na mão. Amei o cd. Dificil na primeira audição, impactante e avassalador logo depois. As estranhezas que Kassin inventa, o piano de Daniel Jobim, o violoncello de Jacques Morelenbaum, o Rhodes de Donatinho, prato e faca de samba de roda do Reconcavo tocados por Moreno Veloso, programações, sintetizadores, e dois violões apenas: Caetano em Tudo Dói, e Luiz Felipe de Lima no 7 cordas em Recanto Escuro. Produção primorosa e nada convencional de Moreno e Caetano Veloso. Queria muito ver isso tudo no palco.

Caetano dirigiu o espetáculo de roteiro primoroso. Ela cantou Baby, Divino Maravilhoso, Mãe, O Amor, Vapor Barato, clássicos de seu longevo e fundamental repertório e, claro, as novas canções.

Depois de Recanto, o show, posso dizer: Gal Costa é a maior cantora do Brasil. Torquato Neto já dizia isso em 70 quando Gal fez o Fa-Tal. E eu repito isso agora em 2012, com o Recanto. Que artista maravilhosa! Entrou com rouquidão, desafinou, se desculpou, assumiu uma faringite e depois só arrasou. Foi nas notas mais baixas, nas mais altas, emocionou e fez chorar. Foi aplaudida de pé no meio das canções. Que instrumento impecável, bem usado, que poder.

Recanto é um disco histórico. Gal e Caetano juntos outra vez. Estrearam juntos em lp com Domingo em 67. Pré tropicalistas com a referencia fortissima de João Gilberto, da bossa que tentavam inventar e desconstruir como dois quadradões desafinados na genial música manifesto Saudosismo. Autotune Autoerotico faz as vezes agora em 2012, diz tudo sobre a voz, a reinvenção, o artificial e nos leva ao delirio com a força dos versos e do caminho melódico que explora toda a força do instrumento Gal Costa. Neguinho foi outro momento marcante. No disco tem o baixo de Kassin, a guitarra de Pedro Sá, programação e sintetizadores de Zeca Veloso. No palco tem Pedro Baby maravilhoso na guitarra e violões, Domenico Lancelotti totalmente genial na bacteria e mpc e Bruno di Lullo, baixo e violão.

Assisti Recanto pertinho de Caetano Veloso que tomava sua indefectível Coca-Cola. Quando Gal cantou com dificuldade no começo do show ela se dirigiu a ele, disse pra não ficar nervoso que ela faria um show bonito. E foi mais que isso, foi uma noite pra se guardar. O disco e o show tem um recado pra dar, ou vários. Mas o que mais diz é sobre a história dessa parceria. E responde aos que estão sempre querendo saber porque os tropicalistas são uma referência tão forte pra cultura nesse país jovem e diverso.

Caetano Veloso tem sempre o que dizer. Suas canções fazem pensar, emocionam, encantam. As letras de Recanto são de uma beleza e de uma dor que há muito esperava ouvir com essa voz tamanha. Um repertório que faz juz `a ela, que é perfeito pra essa mulher importante, essa cantora emblematica.

Eu nunca fiz o coro dos que detrataram Gal Costa por conta de seus discos corretos mas pouco originais cobrando mais revolução fora do tempo. Eu esperava sempre por algo mais com a certeza desse potencial e com o crédito que ela tem por tudo o que já foi feito. Nem preciso listar aqui suas gravações definitivas, antologicas. São conhecidas por todo o Brasil. Fato é que Recanto é um grande disco. Procure saber. Se ainda não ouviu, corra pra se assombrar. E caso esse show se repita, não perca. Coisas sagradas permanecem mas o momento passa ligeiro.

Cantores do Brasil

Nesse domingo tranquilo me dei o prazer de ouvir velhas canções no Ipod mais antigo da casa. Me deparei com João Gilberto e o excelente Amoroso, disco que me destruiu de tristeza imcompreensivel aos 18 anos. Hoje, às vésperas de fazer 46, entendo tudo. Impossível não chorar ouvindo “Retrato em Branco e Preto“, de Chico Buarque e Tom Jobim, mesmo sem ter jamais vivenciado algo parecido. E João Giberto cantando é comovente, muito comovente. “Pra Machucar Meu Coração” de Ary Barroso que ele gravou no clássico Getz/Gilberto de 1964 é outra dessas pérolas, exemplos do melhor do nosso cancioneiro, com Tom Jobim ao piano.
Como é bom ouvir um bom cantor. E como são poucos os espaços em que se falam desses nossos cantores do Brasil.
Escrevi recentemente na coluna Ouvido Absoluto do C2+Música, um texto sobre isso. Devo dizer que faltou espaço pra falar de todas as vozes masculinas incríveis que temos nesse país. Hoje, me lembrei deles depois de ouvir o Amoroso e peguei Foreign Song de Cetano Veloso, que é uma maravilha… que repertório bem escolhido, que deliciosas interpretações.
Coloco aqui João e Caetano. João canta Caymmi e Caetano, Arthur Hamilton. Standards da canção internacional.
E na sequência copio o texto da coluna do Estadão.

CANTORES DO BRASIL

Muito se fala que o Brasil é um pais de cantoras e é verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, às grandes divas da era do radio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Bethânia, a lista é infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Zélia Duncan e a expoente máxima dessa geração – que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferença, Cássia Eller.
Da novissima geração tenho falado muito e graças ao meu trabalho no radio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um cd pela gravadora Jóia Moderna, o Literalmente Loucas – As Canções de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Rennó, Nina Becker e Bárbara Eugênia. O trabalho revela a diversidade do momento atual da música pop brasileira, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade única e inteligente de altissima qualidade.
Agora, e os cantores? Será que não é injusto dizer que esse país não é deles? Francisco Alves – o cantor das multidões; Orlando Silva – o rei da Voz. O charmoso Mário Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contrario dos aqui citados ídolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnológico. E Cyro Monteiro? Que divisão, que suingue! E o grande Jamelão arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o ultimo dos galãs do radio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava tão determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma prótese para parecer mais atraente à juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fenômeno! Quando eu era ainda uma iniciante no radio tive a oportunidade de entrevista-lo e foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi. Levei uma pilha de lps pro estúdio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, assíduo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e também com o microfone. Ciente da magia do veiculo e do poder de sedução da sua voz ele se dirigia diretamente às suas fãs e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!
E entre nossos cantores também há uma enorme diversidade de estilos, é claro. Até no mesmo gênero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simpatica, quase clássica. Luiz Melodia é pra mim um dos maiores, uma voz que não perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excelencia, criador de clássicos, é dessas vozes que eternizam uma canção. Caetano Veloso, em fases em que composiçao não vem tão linda e forte, grava como interprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, só recomendo ouvir em caso de dúvida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.
Mas temos hoje uma diferença interessante com relação ao tempo em que se chamava o Brasil de um país de cantoras ou em que o vozeirão de peito é que fazia fartura. Tenho a impressão que a mudança começou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa geração, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico César, por exemplo. São excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas não é o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da geração seguinte segue pelo mesmo caminho. Léo Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar é um cd de autor. Rômulo Fróes lembra até Paulinho na Viola na sutileza do registro mas é mais no discurso, na coerência da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretensões mas bem gostosinho.
Ainda assim há os que se esmeram no oficio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da França onde fez canto erudito. Filipe Catto é um raríssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na preparação vocal, e é um charme com seu jeito cool de bem comportado carioca. Diogo Poças lembra Mário Reis.
São muitos e só pra confirmar a teoria antropofágica tropicalista que vai até o amálgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacreditável. O país que mistura e transforma como nenhum outro não é só o país das cantoras ou dos cantores, é o país da canção. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.

Vai cantar o que?


Saiu hoje, sábado 26 de fevereiro, a minha coluna no Ouvido Absoluto do C2+Música do Estadão. Inspirada pela notícia do novo cd de Gal Costa escrevi sobre repertório. Caetano Veloso está compondo o disco inteiro pra ela. Ele já fez lindas canções para diversas musas cantoras. Entre elas, Angela Ro Ro com a magnifica “Escandalo”. Achei uma gravação antiga.

E pra Mart’nália tem a incrível “Pé do Meu Samba”. Aqui os dois juntos.

Falei também da escolha de repertório bem feita. Um bom exemplo é o cd “Eu Me Transformo em Outras” de Zélia Duncan. Veja o que é “Doce de Côco”

O link pra coluna na íntegra está aqui.

Quer aprender a sambar? Caetano e Moreno Veloso ensinam!

Às vésperas da maior festa do samba (ou pelo menos era assim antigamente) eu vou contribuir com uma aula fundamental. Caetano e Moreno Veloso dão seus passinhos e ensinam as diferenças e os truques de um bom samba no pé. Esse vídeo é genial!!

E eu aproveito pra copiar aqui um texto delicioso que lí num dos blogs que eu mais frequento, que é o Quando Nada está Acontecendo, de Noemi Jaffe. Tem sempre ótimos textos, mas esse sobre Caetano eu queria ter escrito…

ontem, cantarolando a canção “qualquer coisa”, me dei conta de que nela, rimam as palavras “apanhe” e “mamãe”. “quero que você ganhe, que você me apanhe, sou o seu bezerro gritando mamãe.” logo depois, numa conversa, fiquei sabendo dos manifestos jóia e qualquer coisa, em que caetano veloso defende com a mesma contundência a precisão do ourives e o relaxamento expansivo. e mais uma vez, então, me senti mais livre por reconhecer a genialidade de caetano e por saber que ele está muito vivo e entre nós. não é um reconhecimento reverencial, ou é também; mas é algo mais. o gênio é aquele que reúne potencialidades esparsas; junta paradigma e sintagma, a latência e potência, numa mesma liga forte e duradoura. caetano, quer namorar comigo?

Parangolé Pamplona você mesmo guarda??

images-7 Logo agora que o Brasil começava a dar a devida importância para sua obra, o acervo de Helio Oiticica queima no Rio de Janeiro. Num incêndio trágico tudo o que era guardado na casa da família desse artista de vanguarda dos anos 50 e 60, o mais antenado com o mundo daquela época aqui no Brasil, foi destruído. Hélio Oiticica criou os famosos parangolés e vestiu com eles os moradores do morro da Mangueira. Oiticica fez as caixas penetráveis, obras de arte para entrar dentro, para vivenciar sensações, e uma delas se chamava Tropicália. Foi daí que surgiu o nome do movimento que revolucionou a música brasileira. E Caetano Veloso nem o conhecia pessoalmente quando o nome da obra lhe foi entregue de bandeja. Caiu como uma luva.
O penetrável Tropicália era formado por duas tendas com areia e brita espalhadas pelo chão, araras e vasos com plantas e uma espécie de labirinto que percorria a tenda principal, às escuras. Ao fundo um aparelho de televisão ligado. Helio Oiticica defendia a antropofagia como o único caminho da cultura verdadeiramente brasileira, original, não colonizada.

tropicalia_oiticica

Adriana Calcanhotto, ligada em cinema, literatura e artes plásticas fez sua homenagem com Parangolé Pamplona no disco Maritmo: “Parangolé Pamplona você mesmo faz, com um retângulo de pano de uma cor só… e é só dançar, é só deixar a cor tomar conta do ar…”

Na prestigiosa galeria de arte Tate Modern, em Londres, Helio Oiticica fez uma mostra histórica e levou seus parangolés tropicais.

O que mais me assusta nesse incêndio trágico é saber que obras e acervos espalhados por esse Brasil estão por aí nessa situação precária. Hoje perdemos a obra de Hélio Oiticia e a todo momento quando uma rádio muda de endereço, por exemplo, milhares de horas de gravações históricas, de documentos culturais importantíssimos, são literalmente jogados no lixo em nome da falta de espaço. Ou será por falta de vontade, de entendimento, de educação? Quando será que esse país se levará à sério? Quando será que os investimentos em cultura e educação ganharão a importância que tem as ampliações de portos, rodovias, duplicação de marginais…
Parangolé Pamplona você mesmo guarda?
É triste.

Eu não ando, eu só sambo… por aí…

vida_fot25A letra de “Samba Jambo” de Jorge Mautner é a coisa mais bonitinha do mundo! “Os seus olhinhos sempre tem, meu bem, aquela luz da aurora da manhã…”, fala sério!
Hoje separei essa música pra tocar no Vozes. Tirei do cd duplo O Ser da Tempestade – que saiu no final da década de 90 como um tributo ao filósofo do KAOS.
A primeira vez que vi o Mautner foi num show bagunçadíssimo e muito divertido. Era só para estudantes (eu tinha 18 anos), só ele e Nelson Jacobina. Os dois lindos de morrer, sem camisa por que estava um calor absurdo, cabelos compridos e fazendo um som que eu nunca tinha ouvido antes. Amei.
Os trabalhos mais recentes da dupla Mautner/Jacobina podem ser ouvidos num disco de 2007, Revirão, que saiu sem fazer muito barulho. Antes disso Caetano gravou com ele o cd Eu Não Peço Desculpa, e Jacobina é um dos músicos da seleção Orquestra Imperial.
Bom, pra curtir Jorge Mautner deixo aqui um videozinho onde ele explica o KAOS e na sequência um que tem o show de Caetano com participaçao dos dois aqui citados.
Atente para Celso Sim fazendo a segunda voz em “Maracatu Atômico”. Tão bonitinho…

Caetano Veloso e Jorge Mautner

Mais fotos de Jorge Mautner, olha só que personagem…

1972 Lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata, da Polygram. O disco é lançado por um preço mais baixo que o de mercado, e as lojas começam a boicotá-lo. Assim, o selo Pirata deixa de existir, e o disco é retirado de circulação. Realiza shows em penitenciárias para detentos e também na Casa das Palmeiras (de Nise da Silveira) para os internos, no Rio de Janeiro.

1972 Lança o LP Para Iluminar a Cidade e o compacto Planeta dos Macacos, pelo selo Pirata, da Polygram. O disco é lançado por um preço mais baixo que o de mercado, e as lojas começam a boicotá-lo. Assim, o selo Pirata deixa de existir, e o disco é retirado de circulação.

poeta performático

poeta performático

Só pra lembrar, pra ouvir “Samba Jambo” sintonize o Vozes do Brasil dessa semana. Veja os horários e as emissoras na página Vozes do Brasil no Rádio aí em cima do blog. OU entre no link Território Eldorado pra ouvir sob demanda. E não esqueça de prestar atençao na letra…

ILUSÃO À TÔA

Outro maravilhoso compositor que me apraz comentar: Johny Alf. Foi ele quem escreveu a maravilhosa “Ilusão à Tôa” lá pelo começo da década de 60. Sylvia Telles gravou lindamente. Os versos lhe cairam bem, muito bem mesmo. Acho que tem a ver com um discurso amoroso feminino isso de falar de uma ilusão à tôa, amor discreto pra uma só pessoa… coisas assim. Tem uma tristezinha mas ao mesmo tempo e delicado e esperançoso. É isso é muito feminino.
No disco Cê, Caetano Veloso, o maior entre os nossos contemporâneos, fez de novo aquela brincadeira criativa, genial, de citar e criar sobre uma obra de referência. A primeira vez foi com “Saudosismo” que faz uma linda homenagem à bossa nova, à João Gilberto, e que ele gravou com Gal Costa no lp de estréia dos dois, “Domingo”. Em Cê, ele gravou Ilusão à Tôa e a inédita “Amor Mais que Discreto”.
Para nosso deleite, as duas juntas aqui: