Convidou o Benê Nunes pra tocar!!!

Todo mundo conhece “Coroné Antonio Bento”, sucesso na voz de Tim Maia e depois regravada por Cássia Eller. O que nem todo mundo sabe é quem é o tal do Benê Nunes que o coroné chama pra tocar no casamento da filha Juliana. Pois o homem que fez até o noivo dancar a noite inteira foi uma celebridade nos anos 50, o pianista preferido do presidente Juscelino e uma figura conhecidíssima no Rio de Janeiro como grande incentivador dos meninos que inventaram a bossa nova. Atuou em vários filmes da Atlântida contracenando por exemplo com Adelaide Chiozzo e Grande Otelo. Em 1952 interpretou o compositor Sinhô, no filme “O Rei do samba”, de Luís Santos e ficou conhecido como o pianista galã. Teve orquestras e conjuntos de baile, fez parte do conjunto Milionários do Ritmo de Djalma Ferreira e se apresentava no rádio desde menino. Seu maior sucesso foi a polca “Pedalando” gravada pela companheira de telas, Adelaide Chiozzo em 1950.

Não achei nenhum vídeo com Benê Nunes tocando e só encontrei notícia de 2 discos lançados por ele. Mas a homenagem de João do Vale e Luiz Wanderlei em “Coroné Antonio Bento” fica aqui registrada com a performance de Cássia Eller naquele show maravilhoso de 1995 com três violões, ela, Waltinho Vilaça e Luciano Maurício.

A gravação com Tim Maia contava com Cassiano na guitarra, o próprio Tim ao violão e Paulinho Braga na bateria. Disco antológico de 1970 que tem clássicos no repertório como “Primavera” e “Eu Amo Você” de Cassiano e Rochael, “Cristina”, de Tim Maia e Carlos Imperial, “Padre Cícero”, de Tim e Cassiano e a maravilhosa “Azul da Cor do Mar”, letra e música de Tim com arranjo de orquestra do maestro Waltel Branco.

Mas, já que falamos da pioneiríssima industria cinematográfica Atlântida e de Adelaide Chiozzo, vamos dar uma olhadinha naquele tempo. Adelaide, que tocava acordeon, fazia dupla com a atriz Eliana Macedo nas telas e nos discos. No filme “Aí Vem o Barão” de 1951, dirigido por Watson Macedo, elas cantam “Sabiá Na Gaiola”. Oscarito entra em cena no final da música para dar uma grande notícia: Acabara de se tornar Barão e herdar um luxuoso castelo. Pura diversão!

Esses livros que eu leio…

Por influência de minha mãe, meus irmãos e eu sempre lemos muito. Desde pequenos. E quando adolescente, virginiana, descartava os livros que não me diziam nada, que não me serviam. Curioso. Até hoje tenho uma relação estreita, íntima, essencial com esses objetos que levo pra cama, pra praia, pro avião, não vivo sem e é neles que busco o entendimento das misérias do cotidiano ou dos intrincados problemas existenciais.
Por tudo isso quando ouvi Cássia Eller cantando “Sensações” de Luiz Melodia me identifiquei de imediato.

“Esses livros que eu leio causam sensações…” e são como oráculos que consulto regularmente. Romances, poemas, cartas, filosofia, biografias, fábulas…
Lembro dos tempos de faculdade quando li “Les Liansons Dangereuses”- que virou filme pelo menos duas vezes como “Ligações Perigosas” – fiquei na maior onda de escrever cartas a torto e a direito (o que, confesso, faço até hoje); quando li “Crime e Castigo”, aos 18 anos, fiquei quase psicótica; quando li “O Morro dos Ventos Uivantes” fiquei paralisada como o personagem principal na frente daquela porteira, não saia dessa página…
E assim é. Não consigo viver o que seja sem buscar nos livros um precioso auxílio. Seja pra me entender melhor, seja pra melhor dizer o que eu sinto ou penso ilustrando a minha parca retórica com as geniais sacadas alheias. E, ora, porque não? Não é pra isso que servem os livros?
Disso sabe bem Caetano Veloso que fez um cd chamado Livro e que vive se referindo à poetas, escritores e afins. Calcanhotto também faz isso muito bem. De Melodia já falei, mas vale lembrar o Retrato de Um Artista Quando Coisa, um Manoel de Barros lindo que virou canção arranjada para voz e cordas… um golpe direto no peito.

lilya e maiakovski

Sobre poesia e música já falei muito por aqui e da minha predileção por Maiakovski pra falar de amor de perdição, acho que só entre amigos. Pois bem, Caetano musicou poemas para a peça O Percevejo em 1981. O espetáculo foi dirigido por Luiz Antonio Martinez Correa, com a participação de Dedé Veloso como atriz. Lembro bem do espetáculo no Sesc Pompéia em São Paulo. Uma das canções da trilha, “O amor”, foi sucesso na voz de Gal Costa.

O Amor (sobre poema de Wladimir Maiakovski)

Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão
O Século Trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Vem daí as tais misérias do cotidiano, uma expressão que adoro, vertida do russo para o português por Augusto de Campos. Maiakovski foi um poeta moderno, político e rasgado de romance quando se dedicava ao amor. Para Lilia Brick ele fez um dos poemas mais lindos que já ouvi na vida e que reproduzo aqui:

Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
Lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
O meu amor – duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que ti encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
Num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
Ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Maiakóvski
26 de maio de 1916. Petrogrado.
Tradução de Augusto de Campos

Tarsila

Volto aos livros pra dizer que leio agora um relato inacreditável, corajoso e belo. São as cartas entre Tarsila do Amaral, sim ela mesma a maravilhosa Tarsila do Abaporu, e Anna Maria Martins com o jornalista Luis Martins. Ele foi casado com as duas. Em épocas diferentes. Era muito mais novo que Tarsila, foi seu último companheiro, viveram juntos por 18 anos. Com Anna Maria foram 29. Ainda não terminei, mas estou absolutamente encantada por essa história de amor imenso, compreensão e generosidade. O livro se chama Aí Vai Meu Coração e só isso bastaria pra que o lesse até o final.
Estou só começando, logo mais eu conto o resto. Deixo agora o computador, vou pegar meus óculos pra ler e esquecer as misérias do meu cotidiano com as vidas de Tarsila, Luis e Anna.
Esses livros que eu leio… são a minha salvação.

Ouve no rádio, vê aqui.

Essa semana no Vozes do Brasil a seleção está cheia de duetos. Isso começou por conta de Rita Lee e seu Bossa and Roll, disco antigo e delicioso, que ela fez só com violões há uns 20 anos. Lá na última faixa ela chama Gal Costa pra cantar “Mania de Você” e as duas se divertem muito com a experiência. Brincam uma com o repertório da outra e se não fazem a melhor versão dessa deliciosa música da safra paixão Rita e Roberto, fazem uma das mais interessantes pra quem gosta desse tipo de troca que só se dá ao vivo. Eu adorei e compartilho.

Gal Costa e Rita Lee – Mania de Você

Outro encontro incrível entre duas vozes arrebatadoras: Cássia Eller e Luiz Melodia. No projeto Casa do Samba eles cantam juntos “Juventude Transviada”. Cássia dá um show de tranquilidade com seu vozeirão. Solta a voz e destrói nessa interpretação. Luiz Melodia é pra mim o melhor cantor de sua geração. Compositor genial, herdeiro da tradição do Estácio de Sá e expoente da cultura pop tropicalista marginal. Duo de gigantes!

Luiz Melodia e Cássia Eller – Juventude Transviada

Paulinho Moska é um pensador. Faz música como matemática pura. E Lenine é um maravilhoso irrequieto que cultiva orquídeas. Dois grandes compositores e dois violões cheios de personalidade. Juntos eles fazem “Do It”, de Lenine, numa gravação do genial programa Zoombido.

Moska e Lenine – Do It

A seleção completa está na página Play List do Vozes e eu chamo a atenção aqui pra versão de voz e violão de “Cangote” com a Céu que foi gentilmente cedida por Alexandre Matias do site O Esquema. Eu ouvi e adorei, pedi pra Céu, que pediu pro Alexandre e com a ajuda da Bebel Prates colocamos no ar! Lindo!

Na entrevista da seman temos Claudia Dorei e seu Trip Hop Tropical. Aqui mesmo na sala de casa conversamos sobre seu primeiro cd, Respire, e o bate papo está na integra nesta edição do Vozes do Brasil.

Confira as emissoras na página Vozes do Brasil no Rádio. Bom programa!

Todo Amor Que Houver Nessa Vida – Cássia e Cazuza

Cássia Eller me contou que ouvir Cazuza lhe deu coragem pra ser cantora. “Tive um baque depois que ouvi o cara cantando”, ela disse. Eles não se conheceram, se esbarraram, mas ainda segundo Cássia, “não rolou nada”. Imagine o perigo que seria isso! Dois furacões, dois talentos desse tamanho e com tanta vontade de viver, tanta gana e entrega.
Foi Waly Salomão que acabou promovendo o encontro desses dois monstros românticos. Além de poeta genial, Waly tinha incrível talento para o mundo da música, vide Gal FaTal e as tantas parcerias com Adriana Calcanhotto. Ele foi o produtor e diretor do disco “Veneno Antimonotonia” de 97 e do show “Veneno Vivo”, também lançado em cd. Foi a única ocasião em que Cássia Eller se demorou no camarim pra maquiagem e figurino antes de um show.
Bom, o resultado todo mundo conhece e é de arrepiar. Cássia cantando Cazuza é poesia pura, é mão e luva, é remédio pra dar alegria, é todo amor que houver nessa vida…

As imagens são do Acústico MTV. Lindo arranjo, banda da pesada. Vou agora mesmo rever o show inteiro!

10 de dezembro, aniversário de Cássia Eller

Você diz que sempre foi muito gostoso cantar. Qual é o barato, o que te move?

Não sei, não penso muito no ato de cantar. Imagino sempre a música no todo, como uma energia, quando estou tocando ou cantando ou ouvindo. Uma coisa que acho muito legal é saber ouvir – gosto muito de ouvir música, acima de tudo, de qualquer coisa. Vou dormir e fico pensando em música, sonho com música, sabe? A música surge pronta, com arranjo e tudo, uma música que eu nunca ouvi, eu sonho com isso. Aí acordo e tento reproduzir, mas não consigo, lógico. Só penso nisso o tempo inteiro. O tempo de fazer as coisas, os cálculos que faço, tudo acontece em tempo de compasso musical. O tempo que se tem para atravessar a rua, até aquele carro chegar aqui, fico pensando em música. Não é trilha, são cálculos matemáticos, mas completamente ritmicos.

Depois de dizer isso, Cássia Eller morreu de rir. Esse trecho foi tirado do livro Vozes do Brasil (2002, ed. DBA) e a foto foi tirada por Luciana de Francesco durante a entrevista.
Quem me lembrou do aniversário dela foi Zélia Duncan postando no twitter uma mensagem à respeito: @zdoficial: Seria aniversário de Cássia Eller, aquilo sim era novo, era furacão, comoção no palco e na platéia! Não aceite imitações!
Dia de aniversário é pra lembrar do bonito que ficou e isso tem de sobra. O repertório sempre foi primoroso, ela fez um disco melhor que o outro e seu canto só melhorava. Gravou Luiz Capucho, Arrigo Barnabé, Luiz Melodia, Itamar, Nando Reis, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Cazuza, Renato Russo… que voz! que energia! quanta verdade! que talento raro.
Faz falta. Sempre fará.